Conto 1: A menina e a Venda
Naquela manhã de sol, perdida no tempo de todos
os tempos, uma menina franzina para os seus sete anos, toma seu café preto com
um pedaço de pão amanhecido que sua mãe chamuscara nas chamas do velho fogão. A
manteiga derretida no pão ainda quente, os queimadinhos crocantes, traziam-lhe o
sabor de um gostoso sábado de verão.
À sua frente, o cenário comum de uma cozinha simples como tantas outras naquela vila de operários, a Vila das Graças.
Irrequieta, sensível, ela se agita, balança os pesinhos por debaixo da mesa, numa incontida felicidade que explode dentro dela. Era sempre assim a menina da vila. O cheiro gostoso do café recém coado, a voz da sua mãe cantarolando no quintal, o seu pé de goiaba esperando lá fora, o piso de ladrilho tocando seus pés descalços..Ela não sabia bem o que a fazia querer falar sempre, falar de tudo e com todos. Precisava compartilhar seu mundo que ela tão bem sabia enfeitar de sonhos e fantasias. Abandonava-se num pensamento alado qualquer e voava, imaginava..Criava seus “faz -de-conta”, seus amigos inventados
encarnados em um pé de couve do quintal, ou em um cavalo de pau ... um pé de goiaba...um velocípedes.
De repente, a voz de sua mãe tem o poder de pescá-la de seus sonhos e trazê-la de volta à cena do café que ela engole com avidez.
_"O que é, mãe!!"
_"O que é? Sua malcriada!"
_"Senhora!!!"
" _Ah! Bom. Coma logo e vá buscar uma lata de massa de tomate para a mamãe na venda do seu Zé. Não esqueça a caderneta."
Não era longe. A avenida “F”, onde ela morava ,possuía duas ruas de terra batida separadas por um canteiro de mato crescido ,onde, por toda a extensão da avenida, ficavam as gigantescas torres com grossos fios de alta tensão. Uma cerca de arames farpados proibia às crianças o acesso ao mato debaixo das perigosas torres. A menina só precisava passar pelo buraco feito na cerca, percorrer a trilha de terra amarela aberta no matagal , atravessar a outra rua , e pronto, na esquina , ficava o armazém. Fácil. Ela já estaria quase lá ,e, como todas às vêzes, esperaria ser atendida brincando nos tambores com milho e feijão.
_"O que vai ser desta vez, minha pequena? Pergunta–lhe, de repente , seu Zé."
_"Hi!!!Esqueci...Espera aí."
Corria até a porta da venda e gritava a plenos pulmões em direção da sua casa:
_"Mmmmaaaêêê!!!!! O que é mesmo para comprar?"
A mãe aparecia no portão puxando o fôlego.
_"Uma lata de massa de tomate!"
Um dia, a menina estava brincando no seu pé de goiaba que passava, como num passe de mágica, de um trapézio de circo a um amigo que sabia ouvi-la, quando sua mãe a despertou:
_"Minha filha!"
_"O que é?"
_"O que é?È assim que se responde?"
_"Senhora!!!"
_"Vá ao armazém e me traga um quilo de farinha de mandioca. A caderneta está sobre a mesa."
A menina desceu de sua nuvem, desligou a lua, encarou o sol e o céu azul e pulou da goiabeira.
_"E não me vá esquecer o que você tem de comprar, heim!" , disse-lhe sua mãe. É melhor você ir repetindo baixinho pelo caminho “ um quilo de farinha de mandioca”, assim você se lembra e não vai precisar ficar berrando à porta do armazém até que eu anuncie para a vila toda o que você vai comprar.
E assim , lá se foi a menina descalça, sacudindo as tranças, passando por debaixo da cerca de arame, correndo na trilha de terra batida, até ganhar o outro lado da avenida...
_"Um quilo de farinha de mandioca, um quilo de farinha de mandioca, um quilo de farinha de mandioca" ... Repetia ela baixinho.
Absorvida, não ouve o barulho de uma carroça que se aproxima, e os cavalos quase a atropelam.
_"Oi, minha menina! Aonde vai com tanta pressa?"
Era o seu tio Modesto, carroceiro experiente, que puxando as rédeas em tempo, consegue salvar a sobrinha.
Minutos depois, tio Modesto entra na casa da menina juntando as sobrancelhas com um ar preocupado.
_"Alguém pode me dizer o que acontece com minha sobrinha? Eu passei por ela ainda há pouco, e ao invés de ouvir o costumeiro “sua benção tio, eu ouvi:"
_ "Um quiilo de farinha de mandioca, Tio !!!!!!"
À sua frente, o cenário comum de uma cozinha simples como tantas outras naquela vila de operários, a Vila das Graças.
Irrequieta, sensível, ela se agita, balança os pesinhos por debaixo da mesa, numa incontida felicidade que explode dentro dela. Era sempre assim a menina da vila. O cheiro gostoso do café recém coado, a voz da sua mãe cantarolando no quintal, o seu pé de goiaba esperando lá fora, o piso de ladrilho tocando seus pés descalços..Ela não sabia bem o que a fazia querer falar sempre, falar de tudo e com todos. Precisava compartilhar seu mundo que ela tão bem sabia enfeitar de sonhos e fantasias. Abandonava-se num pensamento alado qualquer e voava, imaginava..Criava seus “faz -de-conta”, seus amigos inventados
encarnados em um pé de couve do quintal, ou em um cavalo de pau ... um pé de goiaba...um velocípedes.
De repente, a voz de sua mãe tem o poder de pescá-la de seus sonhos e trazê-la de volta à cena do café que ela engole com avidez.
_"O que é, mãe!!"
_"O que é? Sua malcriada!"
_"Senhora!!!"
" _Ah! Bom. Coma logo e vá buscar uma lata de massa de tomate para a mamãe na venda do seu Zé. Não esqueça a caderneta."
Não era longe. A avenida “F”, onde ela morava ,possuía duas ruas de terra batida separadas por um canteiro de mato crescido ,onde, por toda a extensão da avenida, ficavam as gigantescas torres com grossos fios de alta tensão. Uma cerca de arames farpados proibia às crianças o acesso ao mato debaixo das perigosas torres. A menina só precisava passar pelo buraco feito na cerca, percorrer a trilha de terra amarela aberta no matagal , atravessar a outra rua , e pronto, na esquina , ficava o armazém. Fácil. Ela já estaria quase lá ,e, como todas às vêzes, esperaria ser atendida brincando nos tambores com milho e feijão.
_"O que vai ser desta vez, minha pequena? Pergunta–lhe, de repente , seu Zé."
_"Hi!!!Esqueci...Espera aí."
Corria até a porta da venda e gritava a plenos pulmões em direção da sua casa:
_"Mmmmaaaêêê!!!!! O que é mesmo para comprar?"
A mãe aparecia no portão puxando o fôlego.
_"Uma lata de massa de tomate!"
Um dia, a menina estava brincando no seu pé de goiaba que passava, como num passe de mágica, de um trapézio de circo a um amigo que sabia ouvi-la, quando sua mãe a despertou:
_"Minha filha!"
_"O que é?"
_"O que é?È assim que se responde?"
_"Senhora!!!"
_"Vá ao armazém e me traga um quilo de farinha de mandioca. A caderneta está sobre a mesa."
A menina desceu de sua nuvem, desligou a lua, encarou o sol e o céu azul e pulou da goiabeira.
_"E não me vá esquecer o que você tem de comprar, heim!" , disse-lhe sua mãe. É melhor você ir repetindo baixinho pelo caminho “ um quilo de farinha de mandioca”, assim você se lembra e não vai precisar ficar berrando à porta do armazém até que eu anuncie para a vila toda o que você vai comprar.
E assim , lá se foi a menina descalça, sacudindo as tranças, passando por debaixo da cerca de arame, correndo na trilha de terra batida, até ganhar o outro lado da avenida...
_"Um quilo de farinha de mandioca, um quilo de farinha de mandioca, um quilo de farinha de mandioca" ... Repetia ela baixinho.
Absorvida, não ouve o barulho de uma carroça que se aproxima, e os cavalos quase a atropelam.
_"Oi, minha menina! Aonde vai com tanta pressa?"
Era o seu tio Modesto, carroceiro experiente, que puxando as rédeas em tempo, consegue salvar a sobrinha.
Minutos depois, tio Modesto entra na casa da menina juntando as sobrancelhas com um ar preocupado.
_"Alguém pode me dizer o que acontece com minha sobrinha? Eu passei por ela ainda há pouco, e ao invés de ouvir o costumeiro “sua benção tio, eu ouvi:"
_ "Um quiilo de farinha de mandioca, Tio !!!!!!"






