quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A menina e suas origens

        Sentada no banquinho de madeira apelidado de Tutu em memória a um cachorrinho da família, a menina olha para cima e tudo o que vê é o céu da boca do avô Bibo. Quando ele erguia a cabeça em direção ao sol e escancarava a boca, a menina se preparava para deliciar-se com a gargalhada mais espetacular que ela, e a vila toda, jamais ouvira. O mundo ria com ele. Os pássaros animavam-se numa debandada ruidosa, os cães latiam, e nos galinheiros, as aves agitavam-se ruidosas. O vento assanhava-se levando aquela gargalhada até os confins da vila.
       A menina encantava-se. Que força extraordinária de humor tinha seu avô para explodir-se assim num rir tão escandalosamente italiano!!!
       Era um homem de risos e choros fáceis. Uma vez, explicaram-lhe essa tendência dramática do avô como resultado do seu lado vêneto. O pai dele nascera em Veneza, o sr Paulo David.
      Da primeira vez que a menina ouvira a história do bisavô Paulo, ela se lembrava muito bem!
      Estavam já em suas camas, ela e seus dois irmãozinhos, Jocerley e David, quando seus pais entraram, como sempre faziam, para ficar um pouco com eles e lhes dar o boa noite. Costumavam ver se estavam bem cobertos, às vezes o seu José tocava violão e todos cantavam, ou faziam do que a menina mais gostava: ouvir histórias.
      Acho que foi respondendo à pergunta da menina sobre o caráter vivo do avô Bibo que a d.a Sílvia resolveu lhes contar a história real da origem européia do avô.
      Num dia qualquer, no final do século XIX, Paulo David, vindo de Veneza, Itália, desembarca no porto de Santos, estado de São Paulo, trazendo em mãos o endereço de seu irmão, Eugênio David, num papel dobrado e muito bem guardado.
      No primeiro ônibus, ele parte ansioso para cá. Chega aqui em Taubaté sem falar o português e com muita dificuldade de fazer-se entender.
      Depois de algumas horas, com fome, cansado , aquele homem louro alto olhos azuis, tem agora os ombros arcados e o ar abatido. O endereço no papel suado, já se rasgando nos vincos, mostra a sua difícil peregrinação.
      Quase cinco horas da tarde, ele está no centro de Taubaté onde havia um bosque de árvores frondosas e bancos de madeira. Esse oásis, era cercado de ricas mansões dos barões do café .
      Paulo prostra-se num banco, descansa um pouco e já está quase desistindo quando repara numa negra que varria a calçada de uma casa do outro lado da rua.
      Levantou-se, aproximou-se dela, abordou-a, e essa negra, de corpo bem feito e o sorriso mais branco que ele já vira, fé- lo entrar, sentar –se na varanda e, junto com o copo com água , ela trouxe o seu patrão branco, que com um parco conhecimento do italiano, explicou-lhe onde ficava a Fazenda do Barreiro.
      Era nessa fazenda que morava seu irmão Eugênio, o precursor do cultivo do caqui na região do Vale do Paraíba. Sonhava se juntar ao irmão, mas o destino lhe reservara apenas a vida de empregado limpador dos cafezais locais. Sempre trabalhou para os outros e nunca fez fortuna.
      Mas, esse homem simples, encontrara o que poucas pessoas podem se gabar de ter encontrado um amor verdadeiro e duradouro.
      Sua paixão se chamava Isaura. A negra que ele conhecera varrendo a calçada naquela tarde de verão, não lhe ofereceu apenas um copo com água reconfortante e o sorriso acolhedor. Ela também lhe ofereceu uma vida de 50 anos ao seu lado. Foi assim...
      Paulo viera agradecer ao patrão de Isaura a atenção dele no outro dia .Mais aliviado com o encontro dos eu irmão, ele teve tempo de conhecer Isaura.Apaixonaram-se, namoraram e se casaram numa missa de domingo na capelinha da fazenda. Da mesma fazenda onde a mãe de Isaura, ex escrava, trabalhava. Seu Sr também era o pai de sua filha, segundo os hábitos da época. Assim, aquela negra que conquistara Paulo com o seu modo terno e fino, tinha no sangue, a estirpe da família branca que a criara.
      Foram morar ali mesmo numa casa de taipa no quintal da fazenda. Ela aprendeu o italiano, fez-lhe todos os gostos. Esmerou-se na cozinha. A polenta feita na panela de ferro e depois derramada na chapa do fogão à lenha era cortada com barbante, bem à moda italiana, como tudo que fazia para ele. O cheiro do café torrado e moído por ela mesma, despertava o marido e os onze filhos que tiveram. Crianças espertas ao redor da mesa, rostos diferentes mostrando a indecisão dos genes. O pai louro e a mãe negra, confundiu a natureza que os fez, então, louros de pele negra, alguns com olhos verdes ou caramelos, cabelos pixains para uns, lisos para outros, pele branca , cabelos cacheados e olhos cor de mel como era o vovô Bibo e algum outro seu irmão. Para os narizes, um formato arrebitado que disfarçava o traço mais negro da família.
      A essa altura, a menina que ouvia atenta a história da mãe, apalpa orgulhosa seu nariz arrebitado e agradece baixinho à sua bisavó Isaura, pois essa era do seu corpo, a parte mais elogiada.
      Os filhos de Isaura e Paulo cresceram na roça e lá mesmo, alguns se casaram.
      - Seu avô Bibo, minha filha, casou-se com a avó Gertrudes que, mais tarde, veio trabalhar aqui em Taubaté como babá dos filhos do senhor Manoel, administrador da Fábrica de Juta. Aos poucos, ela foi trazendo os homens da família para trabalhar no serviço fichado e seguro na fábrica. Primeiro o marido e depois os cunhados, um a um foi deixando o campo de café. Até seus sogros vieram morar na cidade. Todos eles se concentraram na vila das Graças por ser próxima à fábrica.
      Mesmo longe da roça, Isaura pediu um fogão à lenha e continuou no comando da casa onde morava ainda alguns filhos solteiros.
      - Eu me lembro bem do cheiro de tempero que sentia quando abraçava minha avó, e a mãe da menina continuou a história de Paulo e Isaura.
      Paulo adoecera. Talvez tivesse aprendido o sentimento de “banzo” com a mulher africana, e de banzo adoeceu. Não era por falta da Itália, mas por falta da vida na roça. Isaura assistia, inconformada, o marido agonizar. Não aceitava ter de se separar do amado. Os filhos a retiram do quarto para poupa-la da dor de vê-lo morrer. Assim, quando Paulo a chama no seu leito de morte, é a avó Gertrudes, sua nora, que finge ser a esposa Isaura.
      - Isaura, traga o meu chapéu que eu vou fazer uma longa viagem, mas não quero ficar longe de você. Promete que vai encontrar-se comigo em breve? Promete?
      Foi a avó Tuda quem respondeu o ”sim” e fechou-lhe os olhos.
      Alguns dias após o enterro de Paulo, Isaura acabara de lavar a louça do almoço e chamou seu filho Modesto na cozinha:
      - Filho, eu quero que você mande ampliar uma foto do seu pai e a pendure aqui na cozinha num lugar onde eu possa vê-lo sempre.
      - Está bem, mãe, fique sossegada.
     - Já passei uma chaleira de café, vou me deitar um pouco, estou muito cansada. Acorde-me daqui uma hora que eu tenho de dar remédio para o seu irmão que não foi trabalhar.
      - Vá ,vá descansar, eu vou fumar um cigarro enquanto espero a hora de ir ao banco. Depois eu a acordo.
      Mas o espírito iluminado da avó Isaura não quis ficar sem seu amado Paulo. Um suspiro profundo, o seu último e sofrido suspiro, assustou o filho que fumava na sala. Morria dez minutos depois de encomendar a foto de Paulo.
      Era o seu próprio caixão que os filhos chorando abaixavam agora, duas semanas após o enterro do marido, bem ao lado da sepultura dele. Na terra macia e úmida do túmulo de Paulo, as marcas dos dedos de Isaura, ainda junto às flores recém plantadas, denunciavam seu último gesto de amor.
      A mãe da menina estranha o silêncio do quarto quando termina a história. Os dois filhos menores dormiam. O pai debruçado ao violão, tinha o semblante emocionado.
     Minha filha, gostou da história?
      A menina tinha os olhos arregalados, mas não se mexia. Seu corpinho teso não podia mover nem um músculo. Seu queixo batia tanto que seus dentes rangiam. Fora demais para o seu pequeno coração uma história tão linda mas tão triste. Que pena tivera de seus bisavós!!
      Os pensamentos da menina ficaram presos naquela cozinha, naquela chaleira de café feito pela avó e que ainda estava quente quando foi servido às primeiras pessoas que chegaram para guardar o seu corpo. Também presos estavam nas marcas dos dedos da avó na terra macia do cemitério.
     Conhecera os túmulos por ocasião do Dia dos Mortos. Ainda podia vê-los sob uma árvore frondosa, lado a lado, tanto na vida quanto na morte.
     - O que é que você tem, filha? Repetiu-lhe a mãe.
      -Vá preparar-lhe um chá, isso é nervoso, disse o pai.
      Mas, d.a Silvia foi é chamar o médico no telefone da vizinha.
      -Vou dar-lhe um calmante, mas de agora em diante, nada de histórias tristes antes de dormir. Amanhã ela acordará boa e um chá de hortelã lhe fará bem.
      Mal o d.r Jorge saiu e a menina já adormecera Agora, sonhava que era ela, e não a mãe, na cozinha de Isaura . Abraçava-a com força e podia sentir o cheiro de tempero de seu avental.
      - Oi, vó!. As flores que você plantou para o vô Paulo ainda estão lá, viu? Elas são lindas!!!
      Isaura abriu um sorriso doce e acariciou- lhe os cabelos.
 
 
 
 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021


 

A menina e a bicicleta

            A tarde caíra cedo naquele dia de primavera. O sol  desaparecia na Serra da Mantiqueira quando seu pai faz barulho no portão. O coração da menina bate mais rápido. Ele aparece casa adentro empurrando sua bicicleta.  Está cansado, suado, queimado do sol, as veias crescidas na fronte latejante. Pedalara até o município de Redenção da Serra levando intimações do Fórum, era oficial de justiça. .A luz morteira da sala, mostrou à menina a figura abatida do pai.  Enquanto isso, ela recuava a cortina estampada, que separava a sala da cozinha, para que ele passasse com a bicicleta. Ainda teve tempo de reparar na presilha que lhe prendia a barra da calça antes que sua figura  desaparecesse no quintal.

            Sua mãe destapou a sopa fumegante no fogão à carvão, e a provou. Ainda estava quente. Seu pai jantaria antes do banho reconfortante.

            A menina ainda não ouvira falar em psicologia familiar e mal seu pai sentou-se à mesa, ela disparou:

            -Pai, posso andar na sua bicicleta?

            -Não, minha filha. Ela é muito alta , o quadro atrapalha e você pode cair.

            -Não vou cair, não, pai. Eu já sei andar! Ah, deixe...

            -Deixe seu pai comer em paz, menina! Disse-lhe a mãe servindo a sopa. Seu pai gosta de todos à mesa nessa hora. Sente-se e coma!

            -Ah! Deixe, vá, pai...

            E a menina segurava a guarda da cadeira e sobre os ombros do pai...

            -Deixe, pai, eu não caio!

            -Está bem, vá. Mas se você se machucar, eu não vou curar ninguém, ouviu, moça? Pode ir, mas já sabe.

            A menina mal agüenta o peso da bicicleta, e com sacrifício, leva-a até a rua. Segura os guidões, passa as magra perninha  direita por debaixo do quadro, pisa o pedal direito, equilibra-se, procura  com o pesinho esquerdo o outro pedal e...lá vai ela rua abaixo.

            Lembrava um macaco-aranha com as mãos acima da cabeça segurando os guidões, o corpinho torto do lado esquerdo desviando-se do quadro, a perna direita buscando o pedal direito...trabalho de contorcionista. O selim, vazio, sem função, só atrapalhava a manobra.

            Seu coraçãozinho dispara. E agora? A esquina está chegando rápido demais!!!Como eu faço o retorno? Sentia o tremor das pernas.

            Ela procurou os freios. Suas mãozinhas suadas, eram  pequeninas demais para alcançá-los. Os dedinhos esticados, tesos... “não consigo alcançar o freio debaixo do guidão!!!” ela pensou desesperada. Não poderia olhar para procurá-los, teria de levantar a cabeça ou como enxergaria o que lhe vinha pela frente? Claro! Impossível!!

            Sem alternativa, ela deu uma guinada rápida para a esquerda. Tinha de fazer a curva mesmo naquela velocidade desenfreada da descida.

            Tentou. Mas não contava com o banco de areia formado pela enxurrada das águas da chuva que, talvez com o mesmo medo da menina, tentava fazer a curva à esquerda e, descontrolada, depositava  ali a areia trazida de longe.

            Pobre menina! As rodas se derraparam e ela sentiu a bicicleta pesando sobre seu corpinho. Viu a cerca de arame farpado do canteiro da avenida crescer e se aproximar,   chocando –se com ela num impacto surdo .

            -Meu rosto!

            Foi seu único pensamento. Ainda com a bicicleta pesando sobre ela

 e arrastando –a contra a cerca, ela grudou com a mão esquerda o arame e,  com toda a sua frágil força, afastou as farpas metálicas que, como garras de um conto de terror, visavam seu rosto.

            Ficaram assim, não se sabe por quanto tempo: menina, arame e bicicleta, num abraço indecifrável.

            Rua deserta. À frente, o canteiro de mata densa, escuro como breu. O ar morno trouxe o cheiro do capim amassado. Ficou cristalizada, imóvel, esperando... Mas, o quê? Ela não sabia. Precisava esperar. Não poderia se mexer sem se machucar.

            -Papai avisou...  Balbuciou a menina.

            Não sentia dor. A dor vinha de dentro dela, a vergonha de ter de chegar à casa e encarar o seu pai: “ Eu não falei?”

           De repente, a cortina de chita estampada se abre e surge Dona Sílvia outra vez na sala:

        - Venha ver, Zé! A menina se machucou mesmo!!Ah, meu Deus, minha filha, como foi isso?

        Seu pai se levanta da mesa e, pálido, toma o braço da menina.

        - Fique calma, minha filha! Sílvia, traga uma toalha limpa e vá chamar seu pai. Vamos levá-la ao hospital.

        O avô chegou em um minuto. Estavam todos nervosos. A mãe chorava.

        O pai sentou a menina no quadro da bicicleta que felizmente não sofrera danos, amarrou a tolha no braço da pequena, o avô trouxe outra bicicleta, e lá se foram os três ao pronto socorro.

        Não havia médicos àquela hora na Santa Casa. O enfermeiro de plantão fez o que sabia para estancar o sangue: pontos de metal no corte do braço e pequenos curativos na região do pulso, na palma da mão e na ponta do dedo anelar.

        As cicatrizes ficariam para sempre em seu braço e lhe lembrariam as consequências amargas de uma  desobediência.

        O pior foi a tipóia que ela teve de portar por longos vinte dias denunciando o seu acidente o que a obrigava a responder infinitamente aos curiosos:

        - O que foi isso em seu braço, menina?

        - Eu teimei com meu pai e fui andar de bicicleta e ...blá ...blá...blá...blá...

 

 


 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021


 Girando a vida


A vida gira

Gira o mundo

Como girassol...


A cabeça  gira

E gira o tempo

Girando ao sol...


E na gira da vida

Girassol eu sou

Girando o sonho

Que a gira levou...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021


 A vendinha


A serpente de terra

Amarela e batida

Dividia o mato

Verde e rasteiro

Num caminho

Estreito e arenoso


A menina por ele corria

Olhando os pedriscos

Que passavam

Sob seus pés

Apressados


Ia comprar farinha

A menina da Vila...

Que bom se o armazém

Nunca nunca mais...

Chegasse...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021


A menina e as Bonecas     

            O pai da menina, seu José, era oficial de justiça. Um título imponente mas que não lhe rendia o suficiente. Nunca se soube porque eles vieram morar numa vila tão operária como a Vila das Graças,  distante da Praça do Bosque, e do antigo Campo de Futebol do E.C. Taubaté, locais esses, vizinhos ao Prédio do Fórum. Talvez quisessem ficar mais perto dos parentes, todos trabalhadores da Fábrica.

            Os avós maternos da pequena, só tiveram a mãe dela como filha. Operários incansáveis, e não tendo dependentes em casa, faziam, com gosto, realizarem-se todos os   sonhos da menina. Assim, os vestidos de batizado,  primeira comunhão, quinze anos, casamento, teriam sua avó como fada madrinha. Seus  brinquedos, sapatos, material escolar, também vinham dela. Era uma mulher forte, sua avó Gertrudes, a “vó Tuda”.Gostava de falar o que pensava, e foi para a menina, um espelho de luta e trabalho, independência e altivez. Constrangia –se com as demonstrações de carinho da neta, mas derretia-se por dentro:

            -Não faça isso, menina! Ai, Jesus, você me sufoca!

            Fingia uma braveza que o sorriso desmentia.

            E como era bom acompanhar a avó às costureiras! Sentir o cheiro dos tafetás, organdis, anarrugas e rendas...Experimenta, aperta, alfineta, corta...Herdaria para sempre a vaidade da “vó Tuda”. E como era linda sua penteadeira!... A menina levaria vida afora, o desejo de possuir uma penteadeira como a de sua avó: os perfumes Damosel,  Promessa, Madeira do Oriente...os cremes de alface para o rosto, o tônico de quina –petróleo pro cabelo do avô...Ah! Um dos perfumes, vinha envolto num balainho de palha, lindo! O pó de arroz... o batom muito vermelho nas embalagens de lata dourada...Ela adorava observar aquela mulher já madura, mas não velha, a empoar-se para sair. Com sorte, a avó até a deixava sentar-se na cama limpa e cheirosa do casal, com a pera da luz e seu fio comprido dependurado na guarda... e como era lindo aquele lençol bordado a mão...

            Todo Natal, era certo que a menina ganharia uma boneca dos avós. Eram sempre de porcelana, as bonecas, lindas!  Um ano, ela ganhou uma vestida de noiva, com buquezinho, aliança e tudo. Que vontade de brincar com elas, mas não podia. Estavam sempre em cima do guarda-roupas para não se estragarem. Mas a Sofia, ah!...Aquela era especial. Podia mexer os olhinhos!

            -Mãe, posso pegar a Sofia para brincar comigo de fazer comidinha?

A mãe da menina olhou-a bem...

-Está bem, vou lhe dar um pouco  de feijão e arroz crus, mas depois você tem de guardar tudo, heim?

            A menina subiu na cadeira, pegou a Sofia de cima do móvel, suas panelinhas, o feijão, o arroz e foi para o quintal, feliz da vida por sua mãe deixá-la brincar com a boneca.

            Ao cair da tarde, as nuvens apagaram o sol e um pé de vento assanhou os cabelos da boneca e rolou as panelinhas pelo quintal.

            -Entre que vai chover, filha! Gritou-lhe a mãe    

            Foi uma semana triste aquela. Uma chuvinha fria caíra todo tempo prendendo as crianças em casa.

            Na primeira estiagem, a mãe da menina saiu para estender umas roupas no varal. Perto do canteiro de couve, ela se deparou com uma cena horripilante!

            -Filha, venha aqui, já!

            Sofia jazia semi enterrada no barro, e no lugar de seus olhos, brotos viçosos de feijão haviam crescidos:

            -Ah!, sua avó vai ficar sabendo disso!!!!

A menina nunca mais ganhou boneca no Natal.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021


 É Assim


É assim nesses lapsos sem atos

No nada que me vem de um vazio

A poesia e o querer de repente

Dar forma e plasmar

A solidão do meu eu indeciso

O amor desperdiçado

O sentimento encantado

O marasmo mofado

Do não acontecer

Do esquecer de existir

Do lembrar que sou reles

Num tanto de espaços

De colossal dimensão

De infinitos quereres

E procurar o mágico

De se fazer entender

De ser estar despontar

Rasgando múltiplos véus

De nascer de partos mil

De uma vida que teima em 

Em se repetir...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021


 

De Rima em Rima

Busco a eternidade

De palavra em palavra

Procuro o desejado belo

De pausa em pausa na vida

Preciso de vírgulas salvadoras

De pensamento em pensamento

Percorro o inimaginável

De pergaminho em pergaminho

Registro sentidos em sinestesia

De tristeza em tristeza depressiva

Pesco alegrias no rio e igarapé

De letra em letra bem cursiva

Forno amores dentro de mim

Beijo o céu de ternura e brisa

Compartilho musas e brilhos

Distribuo esperança quântica

Velejando mares de acácias

E assopro o perfume que emana

Para o além de verdes campinas

De onde avidamente bebo

Na fonte que jorra forte

Universo Infinito Deus

A essência abstrata do Eu