quinta-feira, 27 de julho de 2017

A menina e suas origens

Sentada no banquinho de madeira apelidado de Tutu em memória a um cachorrinho da família, a menina olha para cima e tudo o que vê é o céu da boca do avô Bibo. Quando ele erguia a cabeça em direção ao sol e escancarava a boca,a menina se preparava para deliciar-se com a gargalhada mais espetacular que ela, e a vila toda, jamais ouvira. O mundo ria com ele.Os pássaros animavam-se numa debandada ruidosa, os cães latiam, e nos galinheiros, as aves agitavam-se ruidosas.O vento assanhava-se levando aquela gargalhada até os confins da vila.
A menina encantava-se. Que força extraordinária de humor tinha seu av ô para explodir-se assim num rir tão escandalosamente italiano!!! Era um homem de risos e choros fáceis. Uma vez, explicaram-lhe essa tendência dramática do avô como resultado do seu lado vêneto. O pai dele nascera em Veneza, o sr Paulo David.
Da primeira vez que a menina ouvira a história do bisavô Paulo, ela se lembrava muito bem!
Estavam já em suas camas, ela e seus dois irmãozinhos, Jocerley e David, quando seus pais entraram, como sempre faziam, para ficar um pouco com eles e lhes dar o boa noite. Costumavam ver se estavam bem cobertos, às vezes o seu José tocava violão e todos cantavam, ou faziam do que a menina mais gostava: ouvir histórias.
Acho que foi respondendo à pergunta da menina sobre o caráter vivo do avô Bibo que a d.a Sílvia resolveu lhes contar a história real da origem européia do avô.
Num dia qualquer, no final do século XIX, Paulo David, vindo de Veneza, Itália, desembarca no porto de Santos, estado de São Paulo, trazendo em mãos o endereço de seu irmão, Eugênio David, num papel dobrado e muito bem guardado.
No primeiro ônibus, ele parte ansioso para cá. Chega aqui em Taubaté sem falar o português e com muita dificuldade de fazer-se entender.
Depois de algumas horas, com fome, cansado , aquele homem louro alto olhos azuis, tem agora os ombros arcados e o ar abatido. O endereço no papel suado, já se rasgando nos vincos, mostra a sua difícil peregrinação.
Quase cinco horas da tarde, ele está no centro de Taubaté onde havia um bosque de árvores frondosas e bancos de madeira.Esse oásis, era cercado de ricas mansões dos barões do café .
Paulo prostra-se num banco, descansa um pouco e já está quase desistindo quando repara numa negra que varria a calçada de uma casa do outro lado da rua.
Levantou-se, aproximou-se dela, abordou-a, e essa negra, de corpo bem feito e o sorriso mais branco que ele já vira, fé- lo entrar, sentar –se na varanda e, junto com o copo com água , ela trouxe o seu patrão branco, que com um parco conhecimento do italiano, explicou-lhe onde ficava a Fazenda do Barreiro.
Era nessa fazenda que morava seu irmão Eugênio, o precursor do cultivo do caqui na região do Vale do Paraíba. Sonhava se juntar ao irmão, mas o destino lhe reservara apenas a vida de empregado limpador dos cafezais locais. Sempre trabalhou para os outros e nunca fez fortuna.
Mas, esse homem simples, encontrara o que poucas pessoas podem se gabar de ter encontrado um amor verdadeiro e duradouro.
Sua paixão se chamava Isaura. A negra que ele conhecera varrendo a calçada naquela tarde de verão, não lhe ofereceu apenas um copo com água reconfortante e o sorriso acolhedor. Ela também lhe ofereceu uma vida de 50 anos ao seu lado. Foi assim...
Paulo viera agradecer ao patrão de Isaura a atenção dele no outro dia .Mais aliviado com o encontro dos eu irmão, ele teve tempo de conhecer Isaura.Apaixonaram-se, namoraram e se casaram numa missa de domingo na capelinha da fazenda. Da mesma fazenda onde a mãe de Isaura, ex escrava, trabalhava. Seu Sr também era o pai de sua filha, segundo os hábitos da época. Assim, aquela negra que conquistara Paulo com o seu modo terno e fino, tinha no sangue, a estirpe da família branca que a criara.
Foram morar ali mesmo numa casa de taipa no quintal da fazenda. Ela aprendeu o italiano, fez-lhe todos os gostos. Esmerou-se na cozinha. A polenta feita na panela de ferro e depois derramada na chapa do fogão à lenha era cortada com barbante, bem à moda italiana, como tudo que fazia para ele. O cheiro do café torrado e moído por ela mesma, despertava o marido e os onze filhos que tiveram. Crianças espertas ao redor da mesa, rostos diferentes mostrando a indecisão dos genes. O pai louro e a mãe negra, confundiu a natureza que os fez, então, louros de pele negra, alguns com olhos verdes ou caramelos, cabelos pixains para uns, lisos para outros, pele branca , cabelos cacheados e olhos cor de mel como era o vovô Bibo e algum outro seu irmão. Para os narizes, um formato arrebitado que disfarçava o traço mais negro da família.
A essa altura, a menina que ouvia atenta a história da mãe, apalpa orgulhosa seu nariz arrebitado e agradece baixinho à sua bisavó Isaura, pois essa era do seu corpo, a parte mais elogiada.
Os filhos de Isaura e Paulo cresceram na roça e lá mesmo, alguns se casaram.
_Seu avô Bibo, minha filha, casou-se com a avó Gertrudes que, mais tarde, veio trabalhar aqui em Taubaté como babá dos filhos do senhor Manoel, administrador da Fábrica de Juta. Aos poucos, ela foi trazendo os homens da família para trabalhar no serviço fichado e seguro na fábrica. Primeiro o marido e depois os cunhados, um a um foi deixando o campo de café. Até seus sogros vieram morar na cidade. Todos eles se concentraram na vila das Graças por ser próxima à fábrica.
Mesmo longe da roça, Isaura pediu um fogão à lenha e continuou no comando da casa onde morava ainda alguns filhos solteiros.
_Eu me lembro bem do cheiro de tempero que sentia quando abraçava minha avó, e a mãe da menina continuou a história de Paulo e Isaura.
Paulo adoecera. Talvez tivesse aprendido o sentimento de “banzo” com a mulher africana, e de banzo adoeceu. Não era por falta da Itália, mas por falta da vida na roça. Isaura assistia, inconformada, o marido agonizar. Não aceitava ter de se separar do amado. Os filhos a retiram do quarto para poupa-la da dor de vê-lo morrer. Assim, quando Paulo a chama no seu leito de morte, é a avó Gertrudes, sua nora, que finge ser a esposa Isaura.
_Isaura, traga o meu chapéu que eu vou fazer uma longa viagem, mas não quero ficar longe de você. Promete que vai encontrar-se comigo em breve? Promete?
Foi a avó Tuda quem respondeu o”sim” e fechou-lhe os olhos.
Alguns dias após o enterro de Paulo, Isaura acabara de lavar a louça do almoço e chamou seu filho Modesto na cozinha:
_Filho, eu quero que você mande ampliar uma foto do seu pai e a pendure aqui na cozinha num lugar onde eu possa vê-lo sempre.
_Está bem, mãe, fique sossegada.
_Já passei uma chaleira de café, vou me deitar um pouco, estou muito cansada. Acorde-me daqui uma hora que eu tenho de dar remédio para o seu irmão que não foi trabalhar.
_Vá ,vá descansar, eu vou fumar um cigarro enquanto espero a hora de ir ao banco.Depois eu a acordo.
Mas o espírito iluminado da avó Isaura não quis ficar sem seu amado Paulo. Um suspiro profundo, o seu último e sofrido suspiro, assustou o filho que fumava na sala. Morria dez minutos depois de encomendar a foto de Paulo.
Era o seu próprio caixão que os filhos chorando abaixavam agora, duas semanas após o enterro do marido, bem ao lado da sepultura dele. Na terra macia e úmida do túmulo de Paulo, as marcas dos dedos de Isaura, ainda junto às flores recém plantadas, denunciavam seu último gesto de amor.
A mãe da menina estranha o silêncio do quarto quando termina a história. Os dois filhos menores dormiam. O pai debruçado ao violão, tinha o semblante emocionado.
Minha filha, gostou da história?
A menina tinha os olhos arregalados, mas não se mexia. Seu corpinho teso não podia mover nem um músculo. Seu queixo batia tanto que seus dentes rangiam. Fora demais para o seu pequeno coração uma história tão linda mas tão triste. Que pena tivera de seus bisavós!!
Os pensamentos da menina ficaram presos naquela cozinha, naquela chaleira de café feito pela avó e que ainda estava quente quando foi servido às primeiras pessoas que chegaram para guardar o seu corpo. Também presos estavam nas marcas dos dedos da avó na terra macia do cemitério.
Conhecera os túmulos por ocasião do Dia dos Mortos. Ainda podia vê-los sob uma árvore frondosa, lado a lado, tanto na vida quanto na morte.
_O que é que você tem, filha? Repetiu-lhe a mãe.
_Vá preparar-lhe um chá, isso é nervoso, disse o pai.
Mas, d.a Silvia foi é chamar o médico no telefone da vizinha.
_Vou dar-lhe um calmante, mas de agora em diante, nada de histórias tristes antes de dormir. Amanhã ela acordará boa e um chá de hortelã lhe fará bem.
Mal o d.r Jorge saiu e a menina já adormecera Agora, sonhava que era ela, e não a mãe, na cozinha de Isaura . Abraçava-a com força e podia sentir o cheiro de tempero de seu avental.
_Oi, vó!.As flores que você plantou para o vô Paulo ainda estão lá,viu? Elas são lindas!!!
Isaura abriu um sorriso doce e acariciou-lhe os cabelos.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017



 A caminho de Ubatuba



           Ah! Aquele perfume do caminho para a Praia do Perequê Açu!!!
           As árvores enormes, pesadas de bromélias e cipós de um lado e um mangue lamacento do outro, faziam do caminho de areia grossa, um tapete úmido e gelado que recebia apenas uns pequenos raios de sol, filtrados através das ramagens. O cheiro forte do mangue por onde corriam azuis goiamus, misturava-se com o aroma das flores brancas dos caetés que cresciam viçosas dos dois lados daquela estrada que parecia ser fruto de um sonho, tamanha a sua beleza.
                Ainda no início da caminhada, podia-se fazer uma parada para beber da água de um casebre de pescador. O líqüido escorria por um bambu grosso e era aparado numa cuia                                     engenhosamente preparada com um cabo de madeira. Todos os que passassem por ali com sede, podiam beber da água fresca e pura que vinha da serra, mas teriam de compartilhar da mesma cuia num gesto democrático de irmandade.
                A nossa menina da Vila das Graças de Taubaté, ainda  não tinha  a sensibilidade para o bucolismo daquele lugar. Com apenas três anos de idade, era sua primeira vez em Ubatuba, uma verdadeira aventura que não lhe fora nada fácil.
                Chegar até ali, a caminho da Praia do Perequê, que a levaria a entrar pela primeira vez no mar, rendera-lhe alguns momentos de medos e descobertas.
                A começar pelos preparativos da viagem. Não entendia muito bem a alegria e o entusiasmo dos seus pais, avós e vizinhos que só falavam na tal viagem. Malas com roupas e muita comida era o que a menina via por todo lado denunciando que algo de muito diferente do seu cotidiano estava para acontecer.
                Chegara a madrugada de um dia de verão. De repente, a menina è acordada com um grande beijo da sua mãe:
                _Chegou o dia, minha filha, acorde! É agora que vamos ao Ubatuba! Quando alcançaram a rua com as malas, seu pai ainda trancava a casa e já sua mãe era recebida pelos vizinhos e parentes com efusivos cumprimentos.
                Um grande caminhão fora adaptado com bancos de madeira em sua carroceria, e a lona estendida sobre eles, presa numa forte estrutura de ferro, protegeria os passageiros no caso de sol ou de chuva.
                A euforia do início da viagem marcado por rezas coletivas e cânticos religiosos pedindo proteção, ia aos poucos, dando lugar ao cansaço e enjôos aqui e ali. Os solavancos de uma estrada de terra mal conservada judiavam das pessoas que tentavam ainda rezar, cantar e até  batucar para matar o tempo. E que tempo! Nove horas da cidade de Taubaté ao Ubatuba! Isso se o caminhão não quebrasse nas pedras salientes da estrada ou do barranco, ou se uma grande barreira não deslizasse dos morros durante as chuvas fortes.
                Quando se avistava o Bairro do Registro, uma distância de Taubaté  que hoje se percorre em 10 minutos, naquela época, todos já estavam com fome e paravam para um cafezinho.

Em São Luiz do Paraitinga, havíamos percorrido a metade do caminho e a esta hora, já o Sol avermelhava o horizonte desenhado de serra azulada num espetáculo surrealista. Chegando ao centro recém acordado da cidade, o caminhão parava num pequeno bar que esperava os viajantes com pães com lingüiça, assados na chapa, bem tostadinhos.
     Os que enjoavam na viagem, fugiam do cheiro escandaloso da lingüiça fumegante, cuja fumaça levava até os confins da rua o odor inapropriado para aquela hora da manhã. Uns usavam os banheiros públicos, outros faziam a “toilette” nas fontes da pracinha, mas a maioria ia se deliciar primeiro com o sanduíche e a média de café com leite.
                Depois,de mais algumas horas com os trazeiros adormecidos nos bancos duros de madeira do caminhão, quando tudo parecia só sofrimento, e um quase arrependimento abatia o pessoal, um e outro mais sabido, anunciava a proximidade da Serra do Mar.
                 Ânimo, palmas, as mulheres começavam a preparar as bolsas de lona listrada que guardavam, no seu interior, marmitas de virado, de feijão, frango na farinha de mandioca, arroz, ovos fritos, salsichas no molho, sem falar das bebidas, muita cachaça, batidas de frutas e guaraná ”Joaninha” nas garrafas “caçulinhas”, porque eram bem pequenas.
Seis, sete horas após a partida e eis que se chegava à Água Tuba, um lugar magnífico, um mirante natural que oferece, no topo da serra, a alguns metros antes do início de sua descida, a visão do oceano lá embaixo, entrecortado pelos morros que se esquecem preguiçosamente nos caminhos das praias, como que estendendo o braço até tocar o mar, água e terra revezando-se  em recortes mágicos, de tirar o fôlego de qualquer viajante. Ali, pararam como todos faziam e fazem até hoje.
                O pai da menina da vila, que viajava como ela pela primeira vez, mal agüentava uma forte dor de estômago e teve de se deitar uns minutos de bruços na relva, à beira da Estrada, para mastigar umas folhinhas de losna amarga, uma erva medicinal, facilmente encontrada, e que uma senhora prevenida havia levado com ela.
                Enquanto isso, as mulheres estendiam as toalhas sobre uma àrvore ao lado do Bar do Tunico, um homem que atraía os fregueses servindo pão com uma lingüiça que ele cortava ao meio no sentido do comprimento e assava na chapa do fogão à lenha, usando um ferro de passar roupas, bem antigo e aquecido à brasa, pesando o mesmo sobre o pão e a lingüiça enquanto assavam.
                 As mulheres, sem se importar com o atrativo do Bar, expunham as comidas já frias, mas nem por isso, menos saborosas.
                Então, tudo foi esquecido, e o entusiasmo, para a felicidade de nossa menina, voltara a fazer o grupo sorrir e cantar. Comeram, beberam, e com as forças recuperadas, voltaram ao caminhão e aos seus lugares para descerem a Serra do Mar. Não deveria demorar muito mais. O mar parecia ali mesmo...diante de seus olhos.
                Começou o calvário da descida. Mata tropical fechada e pirambeiras que pareciam não ter fim apresentavam- se diante dos olhos estarrecidos de todos.
                Às vêzes de um lado, outras vêzes do outro, as curvas da estrada, até hoje chamadas de “cotovelos” por tão bruscas e fechadas, retorciam o caminhão que rangia e pendia como um grande conjunto desajeitado de ferro, madeira e borracha, vencendo vagarosamente os obstáculos.
                As pessoas seguravam com força aos bancos ou umas às outras e o silêncio era quebrado apenas pelas blasfemas dos incrédulos ou  pelas rezas ou pedidos de ajuda aos Santos dos mais fiéis.
                E nem haviam chegado ainda à famosa “pedra da onça”, uma grande pedra que se pronunciava do barranco, fazendo com que o  motorista procedesse manobras estratégicas para não se esbarrar nela. Era bem lá de cima dessa pedra, que algumas pessoas juravam ter visto a onça pintada, toda imponente, nas noites de lua cheia. Dizem que seus urros e uivos assustavam os caminhantes. Mas o sol escaldante, descartava a possibilidade de lua cheia e de onça pintada, disso pelo menos, todos naquele caminhão, tinham certeza.
                Quando passaram pela Cruz de Ferro, uma cruz mais alta que um homem, cravada em uma das últimas curvas da Serra, alguns gritaram ao motorista que parasse e depositaram toalhas bordadas em volta dos braços dela, costume mantido até hoje, por muitas pessoas que passam no local. Aproveitaram o “stop” e tomaram mais um cafezinho esquentado em espiriteiras a álcool e retomaram a jornada.
                De repente, como que por encanto, as curvas tornaram-se mais suaves e a descida quase imperceptível. Foi então que a menina ouviu uma voz lá do fundo do caminhão:
                _Já chegamos, turma! Estamos na várzea, daqui apouco, chegaremos à Ponte do Carretel e já estaremos quase lá.
                Que alívio!! A menina não agüentava mais. Estava branca, suando frio e enjoara o caminho todo. A cada ímpeto de ânsia que lhe fazia contorcer o corpinho, sua mãe lhe oferecia uma toalha de banho que trouxera especialmente para os enjôos dela.
                 A Ponte do Carretel era famosa por provocar um “frio na barriga” quando se passava de carro sobre ela, já que seu formato de carretel faziam a subida e a descida rápidas demais, tirando o fôlego dos passageiros. E assim aconteceu no caminhão, gritarias, suspiros e ais, como quando se anda numa montanha russa.
                Agora o terreno da estrada mudara para um caminho arenoso e esburacado. Uma asa aqui, outra ali, índios vendendo palmito, a beleza úmida do Horto Florestal, tudo era uma completa novidade para a nossa menina e seus amigos. A Serra ficara para trás. Nem descidas, nem subidas. E as casinhas simples dos caiçaras pintando o quadro da paisagem.
                Não chovera durante a viagem, mas agora, enquanto entravam na pequena cidade, a julgar pelas poças de água, parecia que uma forte chuva acabara de cair. Só havia uma rua calçada, a principal de Ubatuba, A da frente da Igreja da Santa Cruz, que fica até hoje numa pracinha linda.Todas as outras ruas eram de pura areia batida e que se esburacavam facilmente com as chuvas.
                O caminhão estacionou bem na praia do centro, a Praia do Cruzeiro que deve o seu nome ao fato de ter sido bem ali, o lugar onde o Jesuíta Padre Anchieta escreveu seu “Poema à Virgem” poucos anos após o descobrimento do Brasil durante a catequização dos índios.
                As pessoas, inclusive a menina e seu pai, desceram do caminhão e correram em direção à praia, afundando os pés na areia macia, aspirando aquele cheiro tão novo de iodo que lhes entravam narinas adentro pela primeira vez. Queriam logo tocar aquela água, levá-la à boca para sentir se era mesmo salgada. Mas tinham medo de que o sal os acordasse do sonho que estava bem ali na frente deles.
                Foi num ímpeto que seu José abaixou-se tocando as espumas borbulhantes da onda que veio lamber sue pés ainda calçados. Junto com essas ondas, veio um peixe se contorcendo num perereco de sobrevivência. Seu José enlouqueceu de emoção, esqueceu-se de que estava com sapatos e meias e entrou mar adentro correndo atrás do peixe saltitante. É claro que não conseguiu agarrá-lo, mas valeu a descontração das pessoas que riram até não poder mais ao vê-lo todo molhado com a roupa a grudar-lhe ao corpo. Ele não se incomodou, mas não parava de pensar em como haveria de estar cheio de peixes esse mar do qual tanto lhe falaram.
                 Depois, foram acomodar-se no “Casarão DR Félix Guisard”, dono da C.T.I., a fábrica de tecidos de Taubaté, hoje, prédio da FUNDART, uma fundação cultural que ocupa o majestoso casarão tombado como Patrimônio da Humanidade. Ele fica ali mesmo na Praia do Cruzeiro, ao lado do portinho dos pescadores e do mercado de peixes, às margens do rio que ali mesmo encontra o mar.
                 Esse belo casarão era gentilmente cedido pelo DR> Félix, aos empregados de sua fábrica todos os anos pelo verão. Essa cumplicidade entre patrão e empregados, selava uma época áurea de crescimento da Fábrica e era bem aceita pelos operários que se revezavam na ocupação da bela mansão.
                Na manhã seguinte, após uma noite de descanso, eles foram explorar as redondezas. Para chegar à Praia do Perequê, precisava-se apenas atravessar  a “ponte do Perequê”, uma ponte de madeira sobre o rio que deságua ali mesmo na Praia do Cruzeiro, em frente ao casarão. Depois da ponte, era só percorrer aquele caminho de sonhos de areia macia, úmida, de guaiamus desfilando, de flores brancas perfumadas, de água para se beber na cuia e de Mata Atlântica sombreando o caminho...
                A menina da vila agora segurava com força a mão de seu pai e não cabia em si de tanta felicidade por fazer parte daquela barulhenta procissão de operários em férias. Todos em maiôs de banho e os homens mais fortes carregando monstruosas câmeras de pneus, devidamente cheias de ar para flutuarem como bóias.
                  Já estavam bem no meio da travessia da ponte, quando a menina resolveu olhar para baixo. Seus pezinhos eram tão miúdos que poderiam passar pelos vãos que separavam uma tábua da outra. Seu coração bateu mais depressa quando ela viu, por entre as frestas das madeiras, o rio lá embaixo invadindo ruidosamente as águas do mar. O pânico instalou-se.A menina estancou-se. Seus pais a puxavam sem entender nada.E ela gritava: _”Eu vou cair no buraco!” Sem parar de olhar para baixo, ela imaginava que aquela disputa entre as águas do mar e do rio era pelo seu frágil corpinho que certamente vazaria para lá no seu próximo passinho.
 Seu José Simões entendeu, por fim, o medo da filha e colocou-a sobre os ombros. Seu medo agora era que o seu pai caísse entre as largas frestas, mas como confiava demais nele, acalmou-se.
                Quando afinal, já fora do perigo, seu pai a coloca no chão, a menina olha para baixo e inicia o berreiro.A chuva que caíra durante toda a noite, deixara grandes poças d´água que àquela hora da manhã, refletiam um céu azul povoado de brancas nuvens que, como tufos de algodão, passavam velozmente , dando à menina uma exata sensação do nada colorido, do vazio, do infinito azul e branco. Ela pára.
_O que foi agora, menina?.Perguntam-lhe os pais.
                _Eu vou cair no céu, vamos cair no fundo do céu...
 Seu José agarrou-a pelos ombros e num tratamento de choque, fê –la pisar o chão no meio da poça d`água e lhe apontou o céu sobre eles, o mesmo céu refletido na água.
Ela parou de chorar, experimentou uns passos. Sorriu. Adorou. E agora, divertia-se pisando forte a poça d`água e desmanchando a cara do céu.
Seus pés tocam, agora, a areia macia do caminho da praia.fazendo-lhe cócegas.Ela olha para trás e vê a ponte bem longe. Terá de passa - la na volta...
À sua frente, o mar.Seu maiô de lã verde,com uma borboleta colorida bordada no peito, começava a assar-lhe entre as pernas.Mas ela não reclama, já dera trabalho demais naquela manhã.Tudo o que ela queria era entrar naquele verde que a esperava.
O caminho termina bem no canto inicial da praia onde uma costeira de pedra e um morro de terra nativa embelezam ainda mais o lugar. A areia aqui é escura e batida por toda a extensão da praia.Dizem as pesquisas, ser ela medicinal, monazítica, curativa nos casos de reumatismo.
Aquela turma alegre que viera com a menina, instalou-se , como de costume na época, no único quiosque da praia, o famoso “Rancho do Galo”.Todos se concentravam ali, era o “point”.
A praia do Perequê é imensa, mas se chegar até o riozinho da Barra Seca que deságua bem no meio dela, já era aventura para poucos. Imagine então, atravessa-lo e ganhar a Praia Indaiá, do outro lado...nem pensar.As paisagens inexploradas eram muitas, as dimensões de distâncias eram outras, quase ninguém tinha carro na década de cinqüenta, e os caminhos de sonhos praticáveis , podiam ser contados.Chegar até Ubatuba era privilégio de poucos, uma verdadeira aventura. Atravessar a Ponte do Perequê e chegar à praia, conhecer o mar ,considerava-se uma vitória. Então, para que mais? Ficava-se por ali mesmo, deixando-se  na primeira parada, o que já era bom por demais.Antes do meio dia já estavam todos bêbados, mesmo os que não provavam da batida de coco do Rancho do Galo. Bêbados de felicidade. Mulheres em maiôs de látex , homens em calções de “banlon” como se dizia, e as crianças em maiôs de lã.Corriam, jogavam bola, nadavam, boiavam nas câmeras de ar, faziam castelos na areia, assavam-se ao sol, ou se franziam de molhados na chuva.Tudo era festa. Precisavam aproveitar que aquilo era coisa de acontecer raras vêzes na vida daquela gente.
A nossa menina só gostou do mar no último momento de praia do derradeiro dia da viagem. Não era mesmo “do contra”, essa garota?
Mas também tinha muita sorte. Seus pais apaixonaram-se pelo Ubatuba, compraram ali uma pequena casa e voltaram sempre por ocasião das férias escolares.
E foi assim que, desde menina, os contornos de montanhas verdejantes, o reflexo delas no mar, o perfume das flores brancas, o cheiro forte de peixe , barcos e maresia nas estreitas ruas que rodeiam o mercado de peixes, a vista do casarão dos Guizard quando o contemplamos da Ponte do Perequê, o vento noroeste assanhando os coqueiros e amendoeiras num abraço quente anunciando chuva...tatuaram-lhe a alma e se fizeram pano de fundo preferido na sua vida , o cenário de esperança e força que lhe vem sempre à mente a resgatar-lhe  sonhos... E o farol...Esse completa a obra como na pintura de um quadro dizendo àqueles que ainda têm a alma menina: Vigiai sempre, mantenha a luz... e deixe essa paisagem infinitamente o enternecer...



quinta-feira, 13 de julho de 2017

A menina e o manjar de coco


Os vizinhos novos acabavam de chegar na Vila das Graças e logo despertaram a atenção de todos. Vinham do Rio de Janeiro trazendo na bagagem um sotaque danado de engraçado, puxando “erres” e “esses”,e ainda por cima, uns traços libaneses nas caras que os tornavam especiais Seu Jorge, o marido, era alto e magro,de maneiras educadas,cabelos negros e crespos, estava sempre de terno e distribuía sorrisos a todos que encontrava. Dona Terezinha, a mãe, era bem gordinha,rosto redondo de pele boa, amável e risonha, fazia inveja com aquele par de olhos mais verdes que o mar em dia de sol.Os cabelos, ela os trazia sempre presos num coque no alto da cabeça, o que dava ao seu rosto, um aspecto limpo e saudável. Sheila era quem mais puxara os traços árabes num nariz pronunciado e bem feito, nos olhos muito grandes e negros como a cor de seus cabelos fartos e encaracolados, amarrados num longo e farto”rabo de cavalo”.Elizabeth, a Beth, a irmã mais velha, tivera uma febre quando bebê que lhe fizera cair para sempre os cabelos, cílios e sobrancelhas. Usava, então, bonitos chapéus que lhe disfarçavam a calvície. Era por isso que Sheila também ostentava idênticos chapéus quando saía com a irmã, a mãe explicava que era por solidariedade.Jorginho, o caçula, tinha os mesmos traços do pai e dava graças a Deus de ter nascido homem e não ter de usar os chapéus.
Dá para imaginar, com todas essas peculiaridades, a curiosidade que essa família despertou naquela pequena vila operária. Chegaram especular até sobre a possibilidade do Sr. Jorge ter sido piloto de avião!
Bem, mas essa era uma daquelas tardes quentes de verão e a menina da vila sentia seus pés descalços queimarem no cimento da calçada.
_Sheila, você não vem brincar? Gritou ela no portão da casa de sua vizinha, enquanto pulava trocando os pesinhos, revezando-os ao contato com o calor do chão.Seus olhos ainda tiveram tempo de se fixar num pe de jeuné carregado de flores amarelas recendendo a um doce perfume. _Entre, eu já vou.
A menina entrou. Sentiu a frescura daquele piso, gostou do verde espalhado nos vasos.
Dona Terezinha estava de pé ao lado da mesa na copa e servia um manjar branco de coco para seus filhos.
_Sente-se, meu bem e coma um pedaço com a gente!
A menina lembrou-se de que sua mãe lhe havia ensinado a não aceitar nada na casa dos outros e ainda não se esquecer de agradecer.
_Não, dona Terezinha, obrigada, mas eu não quero.
A mulher insistiu, mas, diante da taxativa e educada recusa, parecia que o episódio do manjar havia se encerrado.
No outro dia, após chegar da escola, a menina não almoçou direito e se queixou de sono. Dona Sílvia estranhou aquele horário de sono não habitual da filha.
Umas duas horas depois, a mãe ouve seus gritos e corre para o quarto da menina. Encontra-a com os olhos arregalados e com o dedinho apontando a para a janela:
_Lá, mãe, do outro lado da avenida! Olha lá um grilo verde levando o meu patinete!
Ela estava apavorada. Em seu pesadelo, via um grilo enorme, maior que seu pai, e que de vez em quando se virava para rir dela, maldosamente, provocando-a com gargalhadas bestiais, exibindo dentes brancos e largos...as asas pendiam como mangas de um fraque muito verde e engomado.As patas, essas ele as tinha sobre o guidão, seus pés manquitolavam dando impulso na velocidade do patinete...Por mais que ele fugisse rápido,nunca desaparecia do pesadelo dela. Ficava ali a desafiar:_Venha me pegar!!!
Dona Sílvia jogou-se sobre a menina.
_Não tem grilo nenhum, filha, acorde, é um pesadelo!
O grilo só desapareceu quando a menina ouviu sua mãe gritando no muro da vizinha pedindo um galho de hortelã para fazer um chá que a menina tomou com raspas de chifre de veado torrado no fogo. Esse chifre era guardado no lado de dentro do beiral do telhado que cobria o rancho onde ficava a bomba de pistão manual para puxar água da cacimba.
A notícia da febre da menina alastrou-se na vila, como um rastilho de pólvora.
O padre José Luís veio trazer-lhe uma bênção especial.
_Venha aqui, filha!.Vou fazer um sacizinho sair pulando já, já de dentro de você.
Dona Sílvia achou meio estranho o padre mencionar o saci, mas quem ousaria questionar o pároco, não é mesmo?
Como as outras vizinhas, Dona Terezinha também veio visitar a doentinha, mas, ao invés de trazer bolachas ou frutas como de costume, ela lhe trouxe um enorme e apetitoso manjar de coco:
_Ela viu em casa e não quis comer, Dona Sílvia! Aí, eu pensei se não seria “bicha” de vontade do manjar, essa doença da menina!
Não se reconheceria mais a doente. Ela, que há dias não comia, pediu um grande pedaço do manjar à mãe e devorou-o em segundos. Na mesma noite, já estava brincando de “passar anel” na calçada de sua casa.
Nunca mais teria febre, a menina da vila, mas não se esqueceria jamais da figura daquele grilo horroroso tentando levar seu patinete.

quarta-feira, 12 de julho de 2017


A menina e suas origens

Sentada no banquinho de madeira apelidado de Tutu em memória a um cachorrinho da família, a menina olha para cima e tudo o que vê é o céu da boca do avô Bibo. Quando ele erguia a cabeça em direção ao sol e escancarava a boca,a menina se preparava para deliciar-se com a gargalhada mais espetacular que ela, e a vila toda, jamais ouvira. O mundo ria com ele.Os pássaros animavam-se numa debandada ruidosa, os cães latiam, e nos galinheiros, as aves agitavam-se ruidosas.O vento assanhava-se levando aquela gargalhada até os confins da vila.
A menina encantava-se. Que força extraordinária de humor tinha seu avô para explodir-se assim num rir tão escandalosamente italiano!!! Era um homem de risos e choros fáceis. Uma vez, explicaram-lhe essa tendência dramática do avô como resultado do seu lado vêneto. O pai dele nascera em Veneza, o sr Paulo David.
Da primeira vez que a menina ouvira a história do bisavô Paulo, ela se lembrava muito bem!
Estavam já em suas camas, ela e seus dois irmãozinhos, Jocerley e David, quando seus pais entraram, como sempre faziam, para ficar um pouco com eles e lhes dar o boa noite. Costumavam ver se estavam bem cobertos, às vezes o seu José tocava violão e todos cantavam, ou faziam do que a menina mais gostava: ouvir histórias.
Acho que foi respondendo à pergunta da menina sobre o caráter vivo do avô Bibo que a d.a Sílvia resolveu lhes contar a história real da origem européia do avô.
Num dia qualquer, no final do século XIX, Paulo David, vindo de Veneza, Itália, desembarca no porto de Santos, estado de São Paulo, trazendo em mãos o endereço de seu irmão, Eugênio David, num papel dobrado e muito bem guardado.
No primeiro ônibus, ele parte ansioso para cá. Chega aqui em Taubaté sem falar o português e com muita dificuldade de fazer-se entender.
Depois de algumas horas, com fome, cansado , aquele homem louro alto olhos azuis, tem agora os ombros arcados e o ar abatido. O endereço no papel suado, já se rasgando nos vincos, mostra a sua difícil peregrinação.
Quase cinco horas da tarde, ele está no centro de Taubaté onde havia um bosque de árvores frondosas e bancos de madeira.Esse oásis, era cercado de ricas mansões dos barões do café .
Paulo prostra-se num banco, descansa um pouco e já está quase desistindo quando repara numa negra que varria a calçada de uma casa do outro lado da rua.
Levantou-se, aproximou-se dela, abordou-a, e essa negra, de corpo bem feito e o sorriso mais branco que ele já vira, fé- lo entrar, sentar –se na varanda e, junto com o copo com água , ela trouxe o seu patrão branco, que com um parco conhecimento do italiano, explicou-lhe onde ficava a Fazenda do Barreiro.
Era nessa fazenda que morava seu irmão Eugênio, o precursor do cultivo do caqui na região do Vale do Paraíba. Sonhava se juntar ao irmão, mas o destino lhe reservara apenas a vida de empregado limpador dos cafezais locais. Sempre trabalhou para os outros e nunca fez fortuna.
Mas, esse homem simples, encontrara o que poucas pessoas podem se gabar de ter encontrado um amor verdadeiro e duradouro.
Sua paixão se chamava Isaura. A negra que ele conhecera varrendo a calçada naquela tarde de verão, não lhe ofereceu apenas um copo com água reconfortante e o sorriso acolhedor. Ela também lhe ofereceu uma vida de 50 anos ao seu lado. Foi assim...
Paulo viera agradecer ao patrão de Isaura a atenção dele no outro dia .Mais aliviado com o encontro dos eu irmão, ele teve tempo de conhecer Isaura.Apaixonaram-se, namoraram e se casaram numa missa de domingo na capelinha da fazenda. Da mesma fazenda onde a mãe de Isaura, ex escrava, trabalhava. Seu Sr também era o pai de sua filha, segundo os hábitos da época. Assim, aquela negra que conquistara Paulo com o seu modo terno e fino, tinha no sangue, a estirpe da família branca que a criara.
Foram morar ali mesmo numa casa de taipa no quintal da fazenda. Ela aprendeu o italiano, fez-lhe todos os gostos. Esmerou-se na cozinha. A polenta feita na panela de ferro e depois derramada na chapa do fogão à lenha era cortada com barbante, bem à moda italiana, como tudo que fazia para ele. O cheiro do café torrado e moído por ela mesma, despertava o marido e os onze filhos que tiveram. Crianças espertas ao redor da mesa, rostos diferentes mostrando a indecisão dos genes. O pai louro e a mãe negra, confundiu a natureza que os fez, então, louros de pele negra, alguns com olhos verdes ou caramelos, cabelos pixains para uns, lisos para outros, pele branca , cabelos cacheados e olhos cor de mel como era o vovô Bibo e algum outro seu irmão. Para os narizes, um formato arrebitado que disfarçava o traço mais negro da família.
A essa altura, a menina que ouvia atenta a história da mãe, apalpa orgulhosa seu nariz arrebitado e agradece baixinho à sua bisavó Isaura, pois essa era do seu corpo, a parte mais elogiada.
Os filhos de Isaura e Paulo cresceram na roça e lá mesmo, alguns se casaram.
_Seu avô Bibo, minha filha, casou-se com a avó Gertrudes que, mais tarde, veio trabalhar aqui em Taubaté como babá dos filhos do senhor Manoel, administrador da Fábrica de Juta. Aos poucos, ela foi trazendo os homens da família para trabalhar no serviço fichado e seguro na fábrica. Primeiro o marido e depois os cunhados, um a um foi deixando o campo de café. Até seus sogros vieram morar na cidade. Todos eles se concentraram na vila das Graças por ser próxima à fábrica.
Mesmo longe da roça, Isaura pediu um fogão à lenha e continuou no comando da casa onde morava ainda alguns filhos solteiros.
_Eu me lembro bem do cheiro de tempero que sentia quando abraçava minha avó, e a mãe da menina continuou a história de Paulo e Isaura.
Paulo adoecera. Talvez tivesse aprendido o sentimento de “banzo” com a mulher africana, e de banzo adoeceu. Não era por falta da Itália, mas por falta da vida na roça. Isaura assistia, inconformada, o marido agonizar. Não aceitava ter de se separar do amado. Os filhos a retiram do quarto para poupa-la da dor de vê-lo morrer. Assim, quando Paulo a chama no seu leito de morte, é a avó Gertrudes, sua nora, que finge ser a esposa Isaura.
_Isaura, traga o meu chapéu que eu vou fazer uma longa viagem, mas não quero ficar longe de você. Promete que vai encontrar-se comigo em breve? Promete?
Foi a avó Tuda quem respondeu o”sim” e fechou-lhe os olhos.
Alguns dias após o enterro de Paulo, Isaura acabara de lavar a louça do almoço e chamou seu filho Modesto na cozinha:
_Filho, eu quero que você mande ampliar uma foto do seu pai e a pendure aqui na cozinha num lugar onde eu possa vê-lo sempre.
_Está bem, mãe, fique sossegada.
_Já passei uma chaleira de café, vou me deitar um pouco, estou muito cansada. Acorde-me daqui uma hora que eu tenho de dar remédio para o seu irmão que não foi trabalhar.
_Vá ,vá descansar, eu vou fumar um cigarro enquanto espero a hora de ir ao banco.Depois eu a acordo.
Mas o espírito iluminado da avó Isaura não quis ficar sem seu amado Paulo. Um suspiro profundo, o seu último e sofrido suspiro, assustou o filho que fumava na sala. Morria dez minutos depois de encomendar a foto de Paulo.
Era o seu próprio caixão que os filhos chorando abaixavam agora, duas semanas após o enterro do marido, bem ao lado da sepultura dele. Na terra macia e úmida do túmulo de Paulo, as marcas dos dedos de Isaura, ainda junto às flores recém plantadas, denunciavam seu último gesto de amor.
A mãe da menina estranha o silêncio do quarto quando termina a história. Os dois filhos menores dormiam. O pai debruçado ao violão, tinha o semblante emocionado.
Minha filha, gostou da história?
A menina tinha os olhos arregalados, mas não se mexia. Seu corpinho teso não podia mover nem um músculo. Seu queixo batia tanto que seus dentes rangiam. Fora demais para o seu pequeno coração uma história tão linda mas tão triste. Que pena tivera de seus bisavós!!
Os pensamentos da menina ficaram presos naquela cozinha, naquela chaleira de café feito pela avó e que ainda estava quente quando foi servido às primeiras pessoas que chegaram para guardar o seu corpo. Também presos estavam nas marcas dos dedos da avó na terra macia do cemitério.
Conhecera os túmulos por ocasião do Dia dos Mortos. Ainda podia vê-los sob uma árvore frondosa, lado a lado, tanto na vida quanto na morte.
_O que é que você tem, filha? Repetiu-lhe a mãe.
_Vá preparar-lhe um chá, isso é nervoso, disse o pai.
Mas, d.a Silvia foi é chamar o médico no telefone da vizinha.
_Vou dar-lhe um calmante, mas de agora em diante, nada de histórias tristes antes de dormir. Amanhã ela acordará boa e um chá de hortelã lhe fará bem.
Mal o d.r Jorge saiu e a menina já adormecera Agora, sonhava que era ela, e não a mãe, na cozinha de Isaura . Abraçava-a com força e podia sentir o cheiro de tempero de seu avental.
_Oi, vó!.As flores que você plantou para o vô Paulo ainda estão lá,viu? Elas são lindas!!!
Isaura abriu um sorriso doce e acariciou-lhe os cabelos.

sábado, 1 de julho de 2017

A menina e a bicicleta







                A tarde caíra cedo naquele dia de primavera. O sol  desaparecia na Serra da Mantiqueira quando seu pai faz barulho no portão. O coração da menina bate mais rápido. Ele aparece casa adentro empurrando sua bicicleta. Está cansado, suado, queimado do sol, as veias crescidas na fronte latejante. Pedalara até o município de Redenção da Serra levando intimações do Fórum, era oficial de justiça. .A luz morteira da sala, mostrou à menina a figura  abatida do pai.  Enquanto isso, ela recuava a cortina estampada, que separava a sala da cozinha, para que ele passasse com a bicicleta. Ainda teve tempo de reparar na presilha que lhe prendia a barra da calça antes que sua figura  desaparecesse no quintal.                Sua mãe destapou a sopa fumegante no fogão à carvão, e a provou. Ainda estava quente. Seu pai jantaria antes do banho reconfortante.                A menina ainda não ouvira falar em psicologia familiar e mal seu pai sentou-se à mesa, ela disparou:                _Pai, posso andar na sua bicicleta?                _Não, minha filha. Ela é muito alta , o quadro atrapalha e você pode cair.                _Não vou cair, não, pai. Eu já sei andar! Ah, deixe...                _Deixe seu pai comer em paz, menina! Disse-lhe a mãe servindo a sopa. Seu pai gosta de todos à mesa nessa hora. Sente-se e coma!                _Ah! Deixe, vá, pai...                E a menina segurava a guarda da cadeira e sobre os ombros do pai...                _Deixe, pai, eu não caio!                _Está bem, vá. Mas se você se machucar, eu não vou curar ninguém, ouviu, moça? Pode ir, mas já sabe.                A menina mal agüenta o peso da bicicleta, e com sacrifício, leva-a até a rua. Segura os guidões, passa as magra perninha direita por debaixo do quadro, pisa o pedal direito, equilibra-se, procura  com o pesinho esquerdo o outro pedal e...lá vai ela rua abaixo.                Lembrava um macaco-aranha com as mãos acima da cabeça segurando os guidões, o corpinho torto do lado esquerdo desviando-se do quadro, a perna direita buscando o pedal direito...trabalho de contorcionista. O selim, vazio, sem função, só atrapalhava a manobra.                Seu coraçãozinho dispara. E agora? A esquina está chegando rápido demais!!!Como eu faço o retorno? Sentia o tremor das pernas.                Ela procurou os freios. Suas mãozinhas suadas, eram  pequeninas demais para alcançá-los. Os dedinhos esticados, tesos... “não consigo alcançar o freio debaixo do guidão!!!” ela pensou desesperada. Não poderia olhar para procurá-los, teria de levantar a cabeça ou como enxergaria o que lhe vinha pela frente? Claro! Impossível!!                Sem alternativa, ela deu uma guinada rápida para a esquerda. Tinha de fazer a curva mesmo naquela velocidade desenfreada da descida.                Tentou. Mas não contava com o banco de areia formado pela enxurrada das águas da chuva que, talvez com o mesmo medo da menina, tentava fazer a curva à esquerda e, descontrolada, depositava  ali a areia trazida de longe.                Pobre menina! As rodas se derraparam e ela sentiu a bicicleta pesando sobre seu corpinho. Viu a cerca de arame farpado do canteiro da avenida crescer e se aproximar,   chocando –se com ela num impacto surdo .                _Meu rosto!                Foi seu único pensamento. Ainda com a bicicleta pesando sobre ela e arrastando –a contra a cerca, ela grudou com a mão esquerda o arame e,  com toda a sua frágil força, afastou as farpas metálicas que, como garras de um conto de terror, visavam seu rosto.                Ficaram assim, não se sabe por quanto tempo: menina, arame e bicicleta, num abraço indecifrável.                Rua deserta. À frente, o canteiro de mata densa, escuro como breu. O ar morno trouxe o cheiro do capim amassado. Ficou cristalizada, imóvel, esperando... Mas, o quê? Ela não sabia. Precisava esperar. Não poderia se mexer sem se machucar.                _Papai avisou...  Balbuciou a menina.                Não sentia dor. A dor vinha de dentro dela, a vergonha de ter de chegar à casa e encarar o seu pai: “ Eu não falei?”                De repente, ela ouve passos. Um casal sai do escuro do campo. Talvez namorassem num encontro furtivo, mas para ela eles foram os anjos que estavam quando e onde deveriam estar.                _Pobrezinha! Exclamou a mulher. Erga a bicicleta, pediu ao  namorado.                A menina contou que morava no início da rua, mas omitira que desobedecera a seu pai.                _Ô, de casa! Bate palmas a moça no portão. Vim trazer sua filha que caiu da bicicleta!                Dona Sílvia, sua mãe, estava assustada, nem agradeceu, e sem verificar se a menina havia se machucado, teve ímpeto de castigá-la:                _Bem feito! Seu pai lhe avisou! E desapareceu para dentro da casa.                O casal, meio confuso com a reação da mãe da menina, despede-se dela com carinho:                _Não foi nada, meu bem. Você vai ficar boa.                A menina olhou para a varanda escura. Esqueceu-se da bicicleta na calçada. Entrou. Na claridade da sala, ela pode ver o que era aquele líquido morno que lhe escorria pelo braço. Ela chorava e andava de um lado para outro. O piso de tijolo chupava como mata-borrão as gotas vermelhas que pingavam de seus dedos.                _O que é que eu vou fazer meu Deus!! Falou propositadamente alto a menina. Tinha medo do castigo, sabia que errara. Estava envergonhada demais para encarar seus pais, para ir até eles, mas o que faria sozinha com aquele rasgo em seu braço?                Ela ouve sua mãe na cozinha esbravejando ao contar  a seu pai o que tinha acontecido.                               De repente, a cortina de chita estampada se abre e surge Dona Sílvia outra vez na sala:                _Venha ver, Zé! A menina se machucou mesmo!!Ah, meu Deus, minha filha, como foi isso?                Seu pai se levanta da mesa e, pálido, toma o braço da menina.                _Fique calma, minha filha! Sílvia, traga uma toalha limpa e vá chamar seu pai. Vamos levá-la ao hospital.                O avô chegou em um minuto. Estavam todos nervosos. A mãe chorava.                O pai sentou a menina no quadro da bicicleta que felizmente não sofrera danos, amarrou a tolha no braço da pequena, o avô trouxe outra bicicleta, e lá se foram os três ao pronto socorro.                Não havia médicos àquela hora na Santa Casa. O enfermeiro de plantão fez o que sabia para estancar o sangue: pontos de metal no corte do braço e pequenos curativos na região do pulso, na palma da mão e na ponta do dedo anelar.                As cicatrizes ficariam para sempre em seu braço e lhe lembrariam as conseqüências amargas de uma  desobediência.                O pior foi a tipóia que ela teve de portar por longos vinte dias denunciando o seu acidente o que a obrigava a responder infinitamente aos curiosos:                _O que foi isso em seu braço, menina?                _Eu teimei com meu pai e fui andar de bicicleta e ...blá ...blá...blá...blá...