quinta-feira, 30 de julho de 2020


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Os Bosques de Castanhas
A paisagem começa a mudar. Olho pela janela do carro e não vejo mais as montanhetas, pinheiros e a terra branca da nossa Provence. Após algum tempo, começamos a subir os cols (pontos mais altos de serra) rumo à região de Cévennes, Massif Central. Íamos em busca dos bosques de castanhas, esperançosos de encontrar os champignons que adoram crescer no solo úmido de suas árvores.
Nosso sobrinho, Bernard, enquanto dirigia, ia nos ensinando como reconhecer um verdadeiro cèpe ou um sanguin, duas qualidades de cogumelos super apreciadas. Foi dele a idéia de nos levar nas Cévennes aquele domingo.
Os vilarejos se sucediam no caminho. Parávamos naqueles mais conhecidos e mais uma vez as ruelas estreitas, as casas de pedras, as fontes, os arcos servindo de passagem de uma rua para outra, trazia-nos sempre as cenas de um filme dos Três Mosqueteiros.
Paramos o carro na estrada, entre os bosques de castanhas. Para onde olhávamos, víamos o bosque a se estender por quilômetros e quilômetros. Depois das instruções, lá nos dividimos nós, cada um para uma direção com um cajado improvisado, um graveto da própria castanheira para nos apoiarmos colina acima sob as árvores.
As folhas secas eram um colchão macio para os nossos pés, mas dificultava os nossos passos. Com o cajado, removíamos o chão em busca dos champignons. O segredo era gritar de vez em quando esperando a resposta do outro para não nos perdemos. Estávamos em cinco, nosso sobrinho, meus cunhados, Antoine, meu marido e eu. Depois de um bom pedaço de manhã, resolvemos nos juntar e só o que tínhamos eram três cépes e dois sanguins. Mas o que comemos de mûres (amoras silvestres)!!
- Agora podemos pegar as cestas e juntar as castanhas. Disse Bernard.
Não precisamos ir tão longe. O fruto da castanheira, da forma de um ouriço, caía das árvores, e meio escondido entre as folhas secas, esperava o peso dos nossos pés, para explodir, exibindo aquele marrom reluzente ao sol ,que penosamente conseguia penetrar os seus raios entre os galhos. Eram quatro frutos em cada casulo.
Almoçamos num restaurante que daria um capítulo à parte e voltamos a Tarascon.
Como era pouco, do cogumelo fizemos uma omelete baveuse um prato requintado regado a vinho Côtes du Rhône. E das castanhas, fizemos um belo marrom glacé, o verdadeiro, feito de castanhas cozidas e moídas, açúcar e baunilha.
Nas ruas das cidades, no inverno, as castanhas são vendidas em cones de papel, quentinhas, assadas em grandes tachos sobre brasas. Todo mundo agasalhado, de luvas, com os rostos vermelhos pelo frio e comendo as castanhas macias e quentes de dentro de suas cascas torradas... Como nós e os nossos saquinhos de pipoca na porta do antigo Cine Palas antes da sessão das sete.
E os vendedores gritam atraindo a freguesia:
- Chauds les marrons, chauds..



terça-feira, 21 de julho de 2020


Cabocla
O vestido estampado
Espera a mulher
Que chegará do roçado ...
De chita e fita
No fundo do baú
O vestido é cúmplice
De seus sonhos
Vai com ela à feira
Escolherão um novo espelho
E se verão lindos
Nas flores de São João
Mal pode esperar
Pra mostrar o colo moreno
Da cabocla da roça
Que prenderá o cabelo
com a flor da amanhã
E sorrirá ao vesti-lo
Imaginando gingas
Olhares e desejos
Na festa  do vilarejo
...e o vestido no baú
Já presente o seu perfume
Mal pode esperar
Para lhe colar às ancas
E será dos dois
Aquele dia de sol,
Carrossel, rodeio e magia

sexta-feira, 17 de julho de 2020

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 Le Pont du Gard

Não muito longe de Tarascon, a uns quinze Km para ser mais preciso, fica um dos monumentos mais visitados da Provence.
Construído sobre o Rio Gardon, na Região du Gard, esse monumento é o mais puro exemplo de soberania e poder do povo romano que dominava o velho mundo daquela época.
Milenar, ele ainda está lá, quase intacto, imune à ação do tempo.
Logo que você se aproxima do estacionamento recém-construído e com capacidade de receber mais de 3000 veículos, você já começa a ter uma idéia da grandiosidade do Pont du Gard ao entrevê-lo e adivinhá-lo ao fundo, por trás de árvores e rochas da paisagem local.
No caminho que se faz a pé, depois que se deixa o carro, as surpresas se apresentam, uma a uma no lado esquerdo desse caminho: quiosques e lojas vendendo souvenirs e artesanatos, cavernas pré-históricas encravadas nas rochas, uma subida íngreme, sombreada, em meio à mata, onde fica se vê uma escadaria rústica de pedras que dá acesso ao segundo andar da ponte.
 Do lado direito, seguindo todo o trajeto, um jardim artificial acompanha a margem do rio: caramanchões, bancos, gramados, cimentados, banheiros, árvores replantadas e um sistema de rega a vaporizador d´água sob o qual os turistas se esbaldam no alto verão. Salvos os quiosques e as lojas, toda a infraestrutura é muito nova, e, usufruí-la, muito dispendioso.
Meses atrás, eu cheguei a visitar esse lugar, e não se cobrava estacionamento, que não tinha lugar próprio. Parava-se ali mesmo, perto das oliveiras (três) com mais de mil anos, trazidas do Oriente para presentear a França. Apenas uma cerca barrava o lugar. O Antoine contou que, nos anos 70, 80, podia-se passear de carro e bicicleta por todo local, até mesmo no primeiro andar da ponte. E a escadaria que começa lá no caminho de acesso, levava os mais corajosos até a vala que transportava a água, lá em cima, no topo do aqueduto, no topo do terceiro andar.
Depois que você já andou um bom pedaço, já pode se deslumbrar, prender a respiração ao vê-lo por inteiro, majestoso e milenar, intacto à ação do tempo: O Pont de Gard.
Mas por que eles, os romanos, iriam construir uma ponte assim tão monumental, que pelo seu porte incomum, tornou-se através dos tempos, um dos lugares mais visitados do mundo inteiro? O próprio Rio Gardon não justificaria, visto ser um rio nem muito largo, nem muito caudaloso! Só que ele cavou naquela região montanhosa, após milhões de anos, um leito que se tornou o fundo de um desfiladeiro.
Acontece que os romanos, em sua época áurea de domínio do Velho Mundo, tendo uma de suas principais sedes em Nimes, cidade que até hoje trás as marcas desse domínio nas casas de banho, anfiteatros, bibliotecas, arenas, jardins mitológicos, precisavam de muita água, escassa naquela região.
Começaram, então, a construção de um aqueduto que traria o líquido precioso de outros lugares a quilômetros de distancia de Nimes. Para não se desviar do Rio Gardon que estava no caminho do aqueduto, os arquitetos romanos planejaram essa monstruosidade de obra que transportaria a água no terceiro andar da construção sobre o rio, dentro de uma espécie de grande valeta de pedras. Os andares primeiro e segundo têm, entre suas colunas, enormes vãos em arcos e no terceiro, os vãos são menores, mais baixos, formando arcos mais numerosos e delicados. Lembra um pouco aquele monumento dos “arcos” no Rio de Janeiro onde passa um trenzinho sobre ele, sem comparação de tamanho, é claro.
Contam que muitos escravos morreram durante a construção do aqueduto, despencando-se dos andaimes.
O mais interessante é que, naquele tempo, não havia o cimento, nem a cal como nós os conhecemos hoje. O Pont du Gard resiste intacto após mais de mil anos, com suas pedras matematicamente cortadas e encaixadas num sistema de “junta seca”. Elas são só justapostas umas sobre as outras sem rejunte.
Andar por sobre a ponte do primeiro andar, jogar uma moedinha no rio, como manda a tradição, sentir-se parte daquela grandiosidade romana, só não é melhor do que a sensação de descermos ao rio e pisarmos suas águas.  O Observado de baixo para cima, parecemos formigas olhando o gigante de pedras, temos a exata dimensão do poderio romano, tão verdadeiramente descrita nos livros de História.
À bientot!

quarta-feira, 15 de julho de 2020


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Na  tarde  vazia
Sua voz no igual

Do dia agridoce

Tempera os sentidos

Do gosto mais agosto

Salpicando vida

À tarde vadia

Que quase desistia

De esperar o dia

De gostar de você   

segunda-feira, 13 de julho de 2020


            Vocês já ouviram falar no” Moulin de Daudet”?
            Ele é um moinho a vento com sua torre de pedras calcárias avermelhadas, telhado de ardósia, hélices enormes e muito bem reformadas. Cercado por uma mureta também de pedras, seu pátio segue o contorno arredondado de sua torre. As escadarias de acesso ao pátio são um convite para nos sentarmos em seus degraus e ficarmos simplesmente a olhar a paisagem a nossa volta.
            Em plena montanheta, a caminho de Fontvielle, o velho moinho atrai turistas do mundo inteiro. E o que teria ele de tão especial? Não existiriam outros nas mesmas condições na Provence? É claro, eu respondo, mas não com a distinção de ter sido pintado a óleo por Van Gogh e descrito por Alphonse Daudet em seus livros. Alguns desses escritos, plasmados aqui mesmo, nos degraus do moinho:” Les Lettres de Mon Moulin”.
            Enquanto descansamos sentados na escada, e após a visita ao museu de Daudet, máquina de fotos à mão, sentimos o cheiro das ervas ao nosso redor: menta, arruda, tomilho, lavanda selvagem e tantas outras que crescem como mato na Provence. Dizem que os coelhos caçados naquela região crescem temperados, já que se alimentam das ervas perfumadas. São também as mesmas ervas que alimentavam a cabra do senhor Serguin, personagens de Daudet em:” La Chevre de Mr. Seguin”
            No mesmo passeio, podemos seguir em direção de Saint Remy e passarmos pelo hospital onde Van Gogh esteve internado numa de suas famosas depressões existenciais, quando ele se cortou a própria orelha durante uma de suas crises. 
À frente desse hospital, existe um monastério antiquíssimo. Belíssima construção medieval, cuja atração principal é um “Cloitre” lugar magnífico, florido de todas as cores, onde ele, Van Gogh, passava horas e horas meditando. Dizem que os freis tiveram muito a ver com sua melhora.
            Olhar, através das vidraças de seu antigo quarto de hospital, é uma emoção de arrepiar. Mas vocêc pode pagar um ingresso e ter acesso a uma réplica do quarto onde o pintor se recuperava na época, com seus objetos pessoais, mobília, pintura de parede, tudo como ele deixou.
            Uma vez no “centre ville” de Saint Remy, toma-se um bom café à sombra de um plátanos, no Bar de Van Gogh, assim chamado por ser o bar onde ele se reunia com os amigos para pintar ou simplesmente relaxar após vir dos campos escolhidos como temas de suas pinturas.
            Marcas da civilização romana fazem-se presentes de quebra, como um presente, nesses mesmos caminhos, sem desvios, nem perda de tempo. É assim, que, de repente, na paisagem, duas colunas Romanas colossais... mais fotos. À frente, arqueólogos trabalhavam num terreno enorme e esburacado. Uma cidade inteira sendo desencravada. Apogeu dos conquistadores romanos: salas de banhos comunitários, anfiteatro, mercado, escoadores de água...Tudo ali, à beira do caminho.
            Voltamos com o carro cheirando a ervas de Provence, as quais aprendemos colher como os franceses, com cuidado, cortando sem retirar as raízes para que elas ainda cresçam ali se voltarmos um dia.
            Como não tivemos sorte de caçarmos um coelho da região, contentamo-nos com uns escargots bem robustos catados no meio das ervas. Temperado por temperado...      A Bientôt!!!!!

sexta-feira, 10 de julho de 2020


Labirinto Proposital
Onde me debato em vão
... e você não é nem está
... o que foi não existe
Ou foi um sonho mal sonhado?

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Vontade de você
Toca a nossa musica
Os coqueiros silenciam
Cumplices desse momento
A brisa compartilha da magia
E percorre o quarto na penumbra
A fumaça do cigarro quer desenhar seu rosto
O suor umedece o meu corpo
Meu braços deslizam nos lençóis vazios.
Por um momento acredito na sua presença a luz da lua me avisa
Da sua ausência
E melodia agora é o novo modo do quarto
Que aguardo a tudo que virá no cio da lua cheia
Colorir de vida
Seu eterno chegar....

segunda-feira, 6 de julho de 2020


Presépio
Aqui da colina
Telhados Vermelhos
Mosaico de cores
Que eu quero pisar
Brincar de casinha
Descobrir segredos
Amores furtivos
Delitos talvez
Cidade baixa
Telhados vermelhos
Parecem brinquedos
Presépio a esperar
Por um Deus menino
Que sentindo saudade
Venha de mansinho
Nos fazer amar...

quarta-feira, 1 de julho de 2020


Cotidiano

De repente, um susto
Um frio no peito
Borboletas no estômago...
Entre neblina e telhados
Eu a vejo fugidia
Enorme, prateada...
Seis e trinta da manhã
Você me esperou
Pena, não posso parar
Tenho de correr para o trabalho
Queria correr pra você

Ei, aonde você foi?
Não a vejo mais
Tenho de tomar o ônibus
Até a noite, Lua linda
Obrigada por se fazer presente
Neste momento cinza
Do meu cotidiano...