Primavera na França
Qualquer domingo de um mês de, abril, poderá ser, com certeza, um
excelente dia para um passeio pelas redondezas no sul da França.
Em plena primavera, as flores invadem jardins públicos, rotatórias, campos,
montanhetas, fontes, jardins das casas e as jardineiras das janelas. Para onde
você olha, lá estarão elas colorindo tudo, verdadeiros lençóis de
patche-work:
Os vermelhos cocquelicots, (papoulas), os roxos, bordeaux, azuis, rosas e
brancos iris, os amarelos e perfumados jeunés, os pequeninos e também amarelos
bouttons d´or, as dálias, as rosas, os pensés (amores-perfeitos), os brancos
narcisos...Mas são campos inteiros floridos...mares vermelhos de cocquelicots,
brancos de narcisos, amarelos de jeunés e assim por diante.
Foi durante o inverno, ainda em Londres, no High Parck, onde eu me
deparei com as teimosas colchicas pela
primeira vez.
São flores pequeninas em branco e rosa, que rompem a neve no final do
inverno e mostram seu caule de poucos centímetros, mas forte o suficiente para
ostentar uma corola de pétalas frágeis, colorindo a fina camada de gelo, ou o
gramado dos parques e prados, no início da primavera. Na Provence, elas
enfeitam os sopés das montanhas dos Alpesnesta mesma época.
E é num ambiente assim florido que acontecem os dias de Páscoa.
Diferentemente do Brasil, a segunda feira posterior ao Domingo da Ressurreição
é o dia mais festivo da semana e também,o Dia Nacional do Piquenique.
Como tradição secular, principalmente na região da nossa Tarascon, os
católicos se dirigem à Abadia de Frigolet, logo de manhã bem cedo. Assistem à
missa e caminham até o campo do convento. Debaixo dos cedros perfumados, estão
os carros demarcando os lugares escolhidos para o esperado piquenique. Cada
família então, retira do porta-malas os apetrechos e comidas: queijos, salames,
presuntos cru e cozido, patês, azeitonas, tomates, pepinos, ovos, pães, vinhos,
doces e café.
Ao sol, arranjam-se as mesas e cadeiras com os quitutes.
Dali do bosque de cedros, ao som gostoso da brisa doce, podem ainda ser
vistas a Igreja e a Abadia ao fundo. Medieval e austera, guardam o segredo do
saboroso Licor de Frigolet feito e comercializado pelos freis. Dali, para o
mundo todo, espalha-se a magia desse licor que mistura os mais requintados
sabores e perfumes das ervas que crescem nas montanhetas ao redor do Convento,
as famosas ervas de Provence.
Após o piquenique, tudo guardado e limpo, bem ao modo europeu, abandona-se o
lugar e volta-se ao campo atrás da Igreja, onde acontecem as apresentações de
diversas congregações folclóricas e religiosas. As Arlesianas são mulheres de
todas as idades que comparecem em roupas do século XVIII e início do XIX.
Vestidos luxuosos, anquinhas, capinhas de renda branca sobre os ombros,
sapatos de época, sombrinhas, cabelos penteados da mesma maneira, presos no
alto da cabeça, e enfeitados com rendas brancas e engomadas, fazem o rico
visual das damas. Seus cavalheiros também em fraques de época e alinhados
completam a cena. Bandas de Pífanos, animam o ambiente tocando as farandolas
medievais que são dançadas pelos grupos de artistas vindos de todo canto.
Batalhas medievais entre cavaleiros em armaduras, dão um toque cinematográfico
à festa...
Na volta para casa, reparamos no verde dos Platanus. Há bem poucos dias,
eles estavam nus, e agora, já exibem as folhas de um verde “novinho em folha”.
Daqui a duas semanas, estarão novamente cobrindo as estradas do sul da França,
como um túnel infinito.
São assim, as passagens de estações na Europa, verdadeiras explosões de trocas
de paisagens e acontecimentos. Cada fase da Natureza uma nova magia, uma nova
força sacudindo o cotidiano.
Contam-nos, dois sobrinhos franceses que moram no Thaiti, Guy e Bernard, que,
segundo estudos feitos por psicólogos daquela região, a mesmice entre as trocas
das estações do ano em regiões tropicais, onde o sol, chuva e um pouco de frio
intercalam-se indiferentemente durante todo o ano, é culpada pela depressão muito
presente entre os nativos e moradores das ilhas daquele arquipélago. Os dois
afirmam ser essa uma grande verdade e sonham com a força explosiva da Natureza
européia revolvendo tudo.
Será assim também no nosso Nordeste?

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