quinta-feira, 14 de maio de 2020


Compulsório e filosófico

           
            Com o regador em mãos, saio na calçada para regar minhas duas mudas de dama da noite. Olho para o céu. Nem sinal de chuva. Um maio seco e ameaçador. Há um mês não rego minhas pequenas árvores, uma numa ponta, outra em outra ponta da calçada. Não saio do portão para fora faz dois meses. Dois dias após a morte da mamãe. Olho para um lado, para o outro, nada. Puxo o portão, e , como personagem de um filme de ficção, mascarada, desafio a mim mesma e atravesso a rua...estranho, espaços se mostram nos detalhes, já que tudo o que vejo é físico e matéria. Pedriscos da calçada, florezinhas campesinas azuis, vermelhas, amarelas, margaridinhas brancas, minúsculas teimam, agora, seu viço colorido sem a ameaça dos pés que as esmagavam. O asfalto negro arreganha suas rachaduras, antes, quase imperceptíveis. Desço a rua, a minha rua… Agora, tenho medo, acho que não devia… Senti saudade do percurso quando passeava com meu cachorro Zac que também se foi. O coração acelera… nó na garganta. Continuo andando. Ruído algum. As casas vizinhas fechadas, com um ar de abandonadas. Nem sinal de vida, nenhum.
            Olho para frente, passos robóticos, estou no automático e, pensamentos do que vi na TV todos esses dias, neste momento era mais que real. Sem as barreiras das paredes de casa, senti-me nua, vulnerável e frágil.
            É  como se só pudesse constatar a verdade das notícias as quais,  além de esfregar em nossos sentidos a leveza do nosso ser, escancaram também, na telinha, a onda que invadiu nosso planeta. Onda enorme cujo barulho de chegada só grita, cada vez mais perto: olhem uns pelos outros, chega da arrogância egoísta, aprendam a humildade da obediência, saúde não se compra, valorizem os cientistas, aqueçam sua fé, solidarizem-se uns com os outros….
            Então, pensei, nada vem em vão. O mundo está aprendendo a dividir, ajudar, ouvir, criar, amar, sentir falta… Ah! Um abraço bem apertado… como é bom… hoje sabemos o quanto. Nunca um momento nos escancarou com tanta resolução de imagem, nossos irmãos de ruas, das favelas, nossos índios e sua ingenuidade… Antes os adivinhávamos, hoje, os conhecemos, ouvimos seus nomes, assistimos suas lágrimas, vemos seus rostos, seus endereços, são mais presentes que nunca...
            Não pedimos que fosse desse jeito. Claro que não. Mas uma micropartícula mudou o planeta. Sim, ela sacudiu consciências e fez tremer poderes, cutucou sentimentos ímpares onde  estava morno e estagnado, focado na vitória da matéria, longe do que é essencial e bom para o espírito, edificante para a Terra mãe e sua natureza.
            Minha rua ainda nem terminara e, em meio a um turbilhão de pensamentos que só fazem amadurecer nossa alma, encontrei alguns seres como eu: mascarados, receosos e pensativos, paisagem bizarra por onde vacilam seres destinados à sorte.
            Então, um arrepio e um som me chamaram a atenção, como me tirando daquela estranheza, o canto de um pássaro conseguiu ultrapassar a barreira do meu torpor. E eu sorri, senti vontade de responder como sempre faço com os bem-te-vi. Não estava tão sozinha. Havia pássaros!…         Lembrei-me das mensagens dos meus filhos que me chegam em vídeo, das atitudes voluntárias dos grupos sociais e anônimos, das promessas científicas na sua corrida louca à evolução, o uso de máscaras, comportamentos de higiene, delivery mandando vir produtos dos vizinhos, dos bairros e das lojas que se reinventam, tantos progressos humanos, solidários, espirituais e de fé, tudo isso e muito mais, mudar-nos-á para sempre,
            Então, um arrepio e um som me chamaram a atenção, como que me tirando daquela estranheza, e da viagem pra dentro de mim mesma: o canto de um pássaro conseguiu ultrapassar a barreira do meu torpor. E eu sorri, senti vontade de responder como sempre faço com os bem-te-vi. Não estava tão sozinha na minha rua! Havia pássaros!… O céu estava mais azul… Outros momentos planetários como este já vieram e se foram deixando legados de impulso para uma nova maneira de se aprender o mudo!
            Uma vez em casa, tirei a máscara, voltei a mim mesma, e sem esquecer o momento, mas esperançosa, continuei regando minhas plantinhas do jardim e do quintal. Vai passar, tudo vai passar.
           






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