Com o regador em mãos, saio na
calçada para regar minhas duas mudas de dama da noite. Olho para o céu. Nem
sinal de chuva. Um maio seco e ameaçador. Há um mês não rego minhas pequenas
árvores, uma numa ponta, outra em outra ponta da calçada. Não saio do portão
para fora faz dois meses. Dois dias após a morte da mamãe. Olho para um lado,
para o outro, nada. Puxo o portão, e , como personagem de um filme de ficção,
mascarada, desafio a mim mesma e atravesso a rua...estranho, espaços se mostram
nos detalhes, já que tudo o que vejo é físico e matéria. Pedriscos da calçada,
florezinhas campesinas azuis, vermelhas, amarelas, margaridinhas brancas,
minúsculas teimam, agora, seu viço colorido sem a ameaça dos pés que as
esmagavam. O asfalto negro arreganha suas rachaduras, antes, quase
imperceptíveis. Desço a rua, a minha rua… Agora, tenho medo, acho que não
devia… Senti saudade do percurso quando passeava com meu cachorro Zac que
também se foi. O coração acelera… nó na garganta. Continuo andando. Ruído
algum. As casas vizinhas fechadas, com um ar de abandonadas. Nem sinal de vida,
nenhum.
Olho para frente, passos robóticos,
estou no automático e, pensamentos do que vi na TV todos esses dias, neste
momento era mais que real. Sem as barreiras das paredes de casa, senti-me nua,
vulnerável e frágil.
É
como se só pudesse constatar a verdade das notícias as quais, além de esfregar em nossos sentidos a leveza
do nosso ser, escancaram também, na telinha, a onda que invadiu nosso planeta.
Onda enorme cujo barulho de chegada só grita, cada vez mais perto: olhem uns
pelos outros, chega da arrogância egoísta, aprendam a humildade da obediência,
saúde não se compra, valorizem os cientistas, aqueçam sua fé, solidarizem-se
uns com os outros….
Então, pensei, nada vem em vão. O
mundo está aprendendo a dividir, ajudar, ouvir, criar, amar, sentir falta… Ah!
Um abraço bem apertado… como é bom… hoje sabemos o quanto. Nunca um momento nos
escancarou com tanta resolução de imagem, nossos irmãos de ruas, das favelas,
nossos índios e sua ingenuidade… Antes os adivinhávamos, hoje, os conhecemos,
ouvimos seus nomes, assistimos suas lágrimas, vemos seus rostos, seus
endereços, são mais presentes que nunca...
Não pedimos que fosse desse jeito.
Claro que não. Mas uma micropartícula mudou o planeta. Sim, ela sacudiu
consciências e fez tremer poderes, cutucou sentimentos ímpares onde estava morno e estagnado, focado na vitória
da matéria, longe do que é essencial e bom para o espírito, edificante para a
Terra mãe e sua natureza.
Minha rua ainda nem terminara e, em
meio a um turbilhão de pensamentos que só fazem amadurecer nossa alma,
encontrei alguns seres como eu: mascarados, receosos e pensativos, paisagem
bizarra por onde vacilam seres destinados à sorte.
Então, um arrepio e um som me
chamaram a atenção, como me tirando daquela estranheza, o canto de um pássaro
conseguiu ultrapassar a barreira do meu torpor. E eu sorri, senti vontade de
responder como sempre faço com os bem-te-vi. Não estava tão sozinha. Havia
pássaros!… Lembrei-me das
mensagens dos meus filhos que me chegam em vídeo, das atitudes voluntárias dos
grupos sociais e anônimos, das promessas científicas na sua corrida louca à evolução,
o uso de máscaras, comportamentos de higiene, delivery mandando vir produtos dos vizinhos, dos bairros e
das lojas que se reinventam, tantos progressos humanos, solidários, espirituais
e de fé, tudo isso e muito mais, mudar-nos-á para sempre,
Então, um arrepio e um som me
chamaram a atenção, como que me tirando daquela estranheza, e da viagem pra
dentro de mim mesma: o canto de um pássaro conseguiu ultrapassar a barreira do
meu torpor. E eu sorri, senti vontade de responder como sempre faço com os bem-te-vi.
Não estava tão sozinha na minha rua! Havia pássaros!… O céu estava mais azul…
Outros momentos planetários como este já vieram e se foram deixando legados de
impulso para uma nova maneira de se aprender o mudo!
Uma vez em casa, tirei a máscara, voltei
a mim mesma, e sem esquecer o momento, mas esperançosa, continuei regando
minhas plantinhas do jardim e do quintal. Vai passar, tudo vai passar.

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