A Menina e a Fábrica
Sentada na rede do rancho, no quintal da casa de seus avós, a menina podia ver a grande chaminé de tijolos vermelhos da fábrica de juta. Olhando para o fundo do quintal, ali estava, entre as laranjeiras, o portãozinho do muro que separava o pequeno pomar do avô e o “campo da juta” como era chamada a grande área baldia com matos crescidos, por onde os operários tinham de atravessar para chegar à fábrica de Juta. A menina sempre achara uma sorte o avô Bibo morar tão perto de onde trabalhava. Já sua avó tinha de caminhar bem mais para chegar ao seu trabalho na “C.T.I.”, fábrica de tecido.
Agora, a chaminé soltava uma fumaça negra que parecia não se incomodar com os urubus que, em bando, formavam uma ciranda de pontos negros em volta dela, sempre circulando no fundo azul do céu.
O estridente barulho que vem do alto da chaminé a faz estremecer de susto. É o apito que avisa os operários da hora de troca da turma de trabalho.
Um apito longo, queixoso, que chegava a doer os ouvidos para depois ir diminuindo seu barulho ,bem devagarzinho, até desaparecer num sussurro agonizante.
Os que estavam atrasados, apressavam-se.
Um segundo apito seria ouvido dali a poucos minutos. Um apito forte, breve, bem seco e implacável. Era o “Pu”, como os operários o chamavam. Ao término desse som, eles deveriam estar cada um à frente de sua máquina de trabalho para mais uma
jornada.
A menina aprendera a temer o “Pu”. Na verdade, esse apito representou em sua vida um primeiro contato com a realidade, um compromisso de
responsabilidade, obediência e luta.
Seus avós, cada um trabalhando numa fábrica, revezavam-se em turnos. O mesmo apito que chamava ao trabalho, também anunciava o descanso aos que vinham de acabar sua labuta.
Se a menina estivesse fazendo qualquer coisa que fosse, ela largava tudo ao ouvir aquele silvo estridente e forte, e ia até o muro da sua casa para ver aquela gente de rostos cansados, mas felizes, que voltava à sua casa. Traziam todos, dependuradas na cintura, pequenas garrafinhas verdes vazias de guaraná que eles aproveitavam para levar o café engolido frio em meio ao barulho das máquinas.
A procissão alegre de operários barulhentos parece não ter fim. Os olhinhos da menina buscam uma figura em especial. É um anãozinho ruivo a miniatura que a encanta tanto. Ele sorri todas as vezes para ela, como se já a esperasse. Ela abaixa a cabeça envergonhada.
Sua mãe lhe ensinara não reparar nas pessoas diferentes. Mas lhe era irresistível olhar o anãozinho e imaginar se ele brincava de trabalhar.
Ele tinha o seu tamanho! Como podia ter aquela imagem de um homem velho? Como?
Quando erguia a cabeça ainda podia ver a pequena figura voltar-se para ela e lhe sorrir.
Aos poucos, a rua ia ficando deserta...até a saída do próximo turno
da fábrica.
A menina se deixava ficar mais um pouco no jardim fazendo do que ela mais gostava: imaginando. Não adiantaria não crescer como o anão não cresceu. Um dia ,ao poucos, ela teria de deixar o mundo do faz- de- conta e, irremediavelmente, ouvir os apitos da vida que, eternamente, despertariam - na para a realidade...
-Filha, venha almoçar!

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