sábado, 1 de julho de 2017

A menina e a bicicleta







                A tarde caíra cedo naquele dia de primavera. O sol  desaparecia na Serra da Mantiqueira quando seu pai faz barulho no portão. O coração da menina bate mais rápido. Ele aparece casa adentro empurrando sua bicicleta. Está cansado, suado, queimado do sol, as veias crescidas na fronte latejante. Pedalara até o município de Redenção da Serra levando intimações do Fórum, era oficial de justiça. .A luz morteira da sala, mostrou à menina a figura  abatida do pai.  Enquanto isso, ela recuava a cortina estampada, que separava a sala da cozinha, para que ele passasse com a bicicleta. Ainda teve tempo de reparar na presilha que lhe prendia a barra da calça antes que sua figura  desaparecesse no quintal.                Sua mãe destapou a sopa fumegante no fogão à carvão, e a provou. Ainda estava quente. Seu pai jantaria antes do banho reconfortante.                A menina ainda não ouvira falar em psicologia familiar e mal seu pai sentou-se à mesa, ela disparou:                _Pai, posso andar na sua bicicleta?                _Não, minha filha. Ela é muito alta , o quadro atrapalha e você pode cair.                _Não vou cair, não, pai. Eu já sei andar! Ah, deixe...                _Deixe seu pai comer em paz, menina! Disse-lhe a mãe servindo a sopa. Seu pai gosta de todos à mesa nessa hora. Sente-se e coma!                _Ah! Deixe, vá, pai...                E a menina segurava a guarda da cadeira e sobre os ombros do pai...                _Deixe, pai, eu não caio!                _Está bem, vá. Mas se você se machucar, eu não vou curar ninguém, ouviu, moça? Pode ir, mas já sabe.                A menina mal agüenta o peso da bicicleta, e com sacrifício, leva-a até a rua. Segura os guidões, passa as magra perninha direita por debaixo do quadro, pisa o pedal direito, equilibra-se, procura  com o pesinho esquerdo o outro pedal e...lá vai ela rua abaixo.                Lembrava um macaco-aranha com as mãos acima da cabeça segurando os guidões, o corpinho torto do lado esquerdo desviando-se do quadro, a perna direita buscando o pedal direito...trabalho de contorcionista. O selim, vazio, sem função, só atrapalhava a manobra.                Seu coraçãozinho dispara. E agora? A esquina está chegando rápido demais!!!Como eu faço o retorno? Sentia o tremor das pernas.                Ela procurou os freios. Suas mãozinhas suadas, eram  pequeninas demais para alcançá-los. Os dedinhos esticados, tesos... “não consigo alcançar o freio debaixo do guidão!!!” ela pensou desesperada. Não poderia olhar para procurá-los, teria de levantar a cabeça ou como enxergaria o que lhe vinha pela frente? Claro! Impossível!!                Sem alternativa, ela deu uma guinada rápida para a esquerda. Tinha de fazer a curva mesmo naquela velocidade desenfreada da descida.                Tentou. Mas não contava com o banco de areia formado pela enxurrada das águas da chuva que, talvez com o mesmo medo da menina, tentava fazer a curva à esquerda e, descontrolada, depositava  ali a areia trazida de longe.                Pobre menina! As rodas se derraparam e ela sentiu a bicicleta pesando sobre seu corpinho. Viu a cerca de arame farpado do canteiro da avenida crescer e se aproximar,   chocando –se com ela num impacto surdo .                _Meu rosto!                Foi seu único pensamento. Ainda com a bicicleta pesando sobre ela e arrastando –a contra a cerca, ela grudou com a mão esquerda o arame e,  com toda a sua frágil força, afastou as farpas metálicas que, como garras de um conto de terror, visavam seu rosto.                Ficaram assim, não se sabe por quanto tempo: menina, arame e bicicleta, num abraço indecifrável.                Rua deserta. À frente, o canteiro de mata densa, escuro como breu. O ar morno trouxe o cheiro do capim amassado. Ficou cristalizada, imóvel, esperando... Mas, o quê? Ela não sabia. Precisava esperar. Não poderia se mexer sem se machucar.                _Papai avisou...  Balbuciou a menina.                Não sentia dor. A dor vinha de dentro dela, a vergonha de ter de chegar à casa e encarar o seu pai: “ Eu não falei?”                De repente, ela ouve passos. Um casal sai do escuro do campo. Talvez namorassem num encontro furtivo, mas para ela eles foram os anjos que estavam quando e onde deveriam estar.                _Pobrezinha! Exclamou a mulher. Erga a bicicleta, pediu ao  namorado.                A menina contou que morava no início da rua, mas omitira que desobedecera a seu pai.                _Ô, de casa! Bate palmas a moça no portão. Vim trazer sua filha que caiu da bicicleta!                Dona Sílvia, sua mãe, estava assustada, nem agradeceu, e sem verificar se a menina havia se machucado, teve ímpeto de castigá-la:                _Bem feito! Seu pai lhe avisou! E desapareceu para dentro da casa.                O casal, meio confuso com a reação da mãe da menina, despede-se dela com carinho:                _Não foi nada, meu bem. Você vai ficar boa.                A menina olhou para a varanda escura. Esqueceu-se da bicicleta na calçada. Entrou. Na claridade da sala, ela pode ver o que era aquele líquido morno que lhe escorria pelo braço. Ela chorava e andava de um lado para outro. O piso de tijolo chupava como mata-borrão as gotas vermelhas que pingavam de seus dedos.                _O que é que eu vou fazer meu Deus!! Falou propositadamente alto a menina. Tinha medo do castigo, sabia que errara. Estava envergonhada demais para encarar seus pais, para ir até eles, mas o que faria sozinha com aquele rasgo em seu braço?                Ela ouve sua mãe na cozinha esbravejando ao contar  a seu pai o que tinha acontecido.                               De repente, a cortina de chita estampada se abre e surge Dona Sílvia outra vez na sala:                _Venha ver, Zé! A menina se machucou mesmo!!Ah, meu Deus, minha filha, como foi isso?                Seu pai se levanta da mesa e, pálido, toma o braço da menina.                _Fique calma, minha filha! Sílvia, traga uma toalha limpa e vá chamar seu pai. Vamos levá-la ao hospital.                O avô chegou em um minuto. Estavam todos nervosos. A mãe chorava.                O pai sentou a menina no quadro da bicicleta que felizmente não sofrera danos, amarrou a tolha no braço da pequena, o avô trouxe outra bicicleta, e lá se foram os três ao pronto socorro.                Não havia médicos àquela hora na Santa Casa. O enfermeiro de plantão fez o que sabia para estancar o sangue: pontos de metal no corte do braço e pequenos curativos na região do pulso, na palma da mão e na ponta do dedo anelar.                As cicatrizes ficariam para sempre em seu braço e lhe lembrariam as conseqüências amargas de uma  desobediência.                O pior foi a tipóia que ela teve de portar por longos vinte dias denunciando o seu acidente o que a obrigava a responder infinitamente aos curiosos:                _O que foi isso em seu braço, menina?                _Eu teimei com meu pai e fui andar de bicicleta e ...blá ...blá...blá...blá...   


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