quinta-feira, 13 de julho de 2017

A menina e o manjar de coco


Os vizinhos novos acabavam de chegar na Vila das Graças e logo despertaram a atenção de todos. Vinham do Rio de Janeiro trazendo na bagagem um sotaque danado de engraçado, puxando “erres” e “esses”,e ainda por cima, uns traços libaneses nas caras que os tornavam especiais Seu Jorge, o marido, era alto e magro,de maneiras educadas,cabelos negros e crespos, estava sempre de terno e distribuía sorrisos a todos que encontrava. Dona Terezinha, a mãe, era bem gordinha,rosto redondo de pele boa, amável e risonha, fazia inveja com aquele par de olhos mais verdes que o mar em dia de sol.Os cabelos, ela os trazia sempre presos num coque no alto da cabeça, o que dava ao seu rosto, um aspecto limpo e saudável. Sheila era quem mais puxara os traços árabes num nariz pronunciado e bem feito, nos olhos muito grandes e negros como a cor de seus cabelos fartos e encaracolados, amarrados num longo e farto”rabo de cavalo”.Elizabeth, a Beth, a irmã mais velha, tivera uma febre quando bebê que lhe fizera cair para sempre os cabelos, cílios e sobrancelhas. Usava, então, bonitos chapéus que lhe disfarçavam a calvície. Era por isso que Sheila também ostentava idênticos chapéus quando saía com a irmã, a mãe explicava que era por solidariedade.Jorginho, o caçula, tinha os mesmos traços do pai e dava graças a Deus de ter nascido homem e não ter de usar os chapéus.
Dá para imaginar, com todas essas peculiaridades, a curiosidade que essa família despertou naquela pequena vila operária. Chegaram especular até sobre a possibilidade do Sr. Jorge ter sido piloto de avião!
Bem, mas essa era uma daquelas tardes quentes de verão e a menina da vila sentia seus pés descalços queimarem no cimento da calçada.
_Sheila, você não vem brincar? Gritou ela no portão da casa de sua vizinha, enquanto pulava trocando os pesinhos, revezando-os ao contato com o calor do chão.Seus olhos ainda tiveram tempo de se fixar num pe de jeuné carregado de flores amarelas recendendo a um doce perfume. _Entre, eu já vou.
A menina entrou. Sentiu a frescura daquele piso, gostou do verde espalhado nos vasos.
Dona Terezinha estava de pé ao lado da mesa na copa e servia um manjar branco de coco para seus filhos.
_Sente-se, meu bem e coma um pedaço com a gente!
A menina lembrou-se de que sua mãe lhe havia ensinado a não aceitar nada na casa dos outros e ainda não se esquecer de agradecer.
_Não, dona Terezinha, obrigada, mas eu não quero.
A mulher insistiu, mas, diante da taxativa e educada recusa, parecia que o episódio do manjar havia se encerrado.
No outro dia, após chegar da escola, a menina não almoçou direito e se queixou de sono. Dona Sílvia estranhou aquele horário de sono não habitual da filha.
Umas duas horas depois, a mãe ouve seus gritos e corre para o quarto da menina. Encontra-a com os olhos arregalados e com o dedinho apontando a para a janela:
_Lá, mãe, do outro lado da avenida! Olha lá um grilo verde levando o meu patinete!
Ela estava apavorada. Em seu pesadelo, via um grilo enorme, maior que seu pai, e que de vez em quando se virava para rir dela, maldosamente, provocando-a com gargalhadas bestiais, exibindo dentes brancos e largos...as asas pendiam como mangas de um fraque muito verde e engomado.As patas, essas ele as tinha sobre o guidão, seus pés manquitolavam dando impulso na velocidade do patinete...Por mais que ele fugisse rápido,nunca desaparecia do pesadelo dela. Ficava ali a desafiar:_Venha me pegar!!!
Dona Sílvia jogou-se sobre a menina.
_Não tem grilo nenhum, filha, acorde, é um pesadelo!
O grilo só desapareceu quando a menina ouviu sua mãe gritando no muro da vizinha pedindo um galho de hortelã para fazer um chá que a menina tomou com raspas de chifre de veado torrado no fogo. Esse chifre era guardado no lado de dentro do beiral do telhado que cobria o rancho onde ficava a bomba de pistão manual para puxar água da cacimba.
A notícia da febre da menina alastrou-se na vila, como um rastilho de pólvora.
O padre José Luís veio trazer-lhe uma bênção especial.
_Venha aqui, filha!.Vou fazer um sacizinho sair pulando já, já de dentro de você.
Dona Sílvia achou meio estranho o padre mencionar o saci, mas quem ousaria questionar o pároco, não é mesmo?
Como as outras vizinhas, Dona Terezinha também veio visitar a doentinha, mas, ao invés de trazer bolachas ou frutas como de costume, ela lhe trouxe um enorme e apetitoso manjar de coco:
_Ela viu em casa e não quis comer, Dona Sílvia! Aí, eu pensei se não seria “bicha” de vontade do manjar, essa doença da menina!
Não se reconheceria mais a doente. Ela, que há dias não comia, pediu um grande pedaço do manjar à mãe e devorou-o em segundos. Na mesma noite, já estava brincando de “passar anel” na calçada de sua casa.
Nunca mais teria febre, a menina da vila, mas não se esqueceria jamais da figura daquele grilo horroroso tentando levar seu patinete.

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