A caminho de Ubatuba
Ah! Aquele perfume do caminho para a Praia do Perequê Açu!!!
As árvores enormes, pesadas de bromélias e cipós de um lado e um mangue lamacento do outro, faziam do caminho de areia grossa, um tapete úmido e gelado que recebia apenas uns pequenos raios de sol, filtrados através das ramagens. O cheiro forte do mangue por onde corriam azuis goiamus, misturava-se com o aroma das flores brancas dos caetés que cresciam viçosas dos dois lados daquela estrada que parecia ser fruto de um sonho, tamanha a sua beleza.
Ainda no início da caminhada, podia-se fazer uma parada para beber da água de um casebre de pescador. O líqüido escorria por um bambu grosso e era aparado numa cuia engenhosamente preparada com um cabo de madeira. Todos os que passassem por ali com sede, podiam beber da água fresca e pura que vinha da serra, mas teriam de compartilhar da mesma cuia num gesto democrático de irmandade.
A nossa menina da Vila das Graças de Taubaté, ainda não tinha a sensibilidade para o bucolismo daquele lugar. Com apenas três anos de idade, era sua primeira vez em Ubatuba, uma verdadeira aventura que não lhe fora nada fácil.
Chegar até ali, a caminho da Praia do Perequê, que a levaria a entrar pela primeira vez no mar, rendera-lhe alguns momentos de medos e descobertas.
A começar pelos preparativos da viagem. Não entendia muito bem a alegria e o entusiasmo dos seus pais, avós e vizinhos que só falavam na tal viagem. Malas com roupas e muita comida era o que a menina via por todo lado denunciando que algo de muito diferente do seu cotidiano estava para acontecer.
Chegara a madrugada de um dia de verão. De repente, a menina è acordada com um grande beijo da sua mãe:
_Chegou o dia, minha filha, acorde! É agora que vamos ao Ubatuba! Quando alcançaram a rua com as malas, seu pai ainda trancava a casa e já sua mãe era recebida pelos vizinhos e parentes com efusivos cumprimentos.
Um grande caminhão fora adaptado com bancos de madeira em sua carroceria, e a lona estendida sobre eles, presa numa forte estrutura de ferro, protegeria os passageiros no caso de sol ou de chuva.
A euforia do início da viagem marcado por rezas coletivas e cânticos religiosos pedindo proteção, ia aos poucos, dando lugar ao cansaço e enjôos aqui e ali. Os solavancos de uma estrada de terra mal conservada judiavam das pessoas que tentavam ainda rezar, cantar e até batucar para matar o tempo. E que tempo! Nove horas da cidade de Taubaté ao Ubatuba! Isso se o caminhão não quebrasse nas pedras salientes da estrada ou do barranco, ou se uma grande barreira não deslizasse dos morros durante as chuvas fortes.
Quando se avistava o Bairro do Registro, uma distância de Taubaté que hoje se percorre em 10 minutos, naquela época, todos já estavam com fome e paravam para um cafezinho.
Em São Luiz do Paraitinga, havíamos percorrido a metade do caminho e a esta hora, já o Sol avermelhava o horizonte desenhado de serra azulada num espetáculo surrealista. Chegando ao centro recém acordado da cidade, o caminhão parava num pequeno bar que esperava os viajantes com pães com lingüiça, assados na chapa, bem tostadinhos.
Os que enjoavam na viagem, fugiam do cheiro escandaloso da lingüiça fumegante, cuja fumaça levava até os confins da rua o odor inapropriado para aquela hora da manhã. Uns usavam os banheiros públicos, outros faziam a “toilette” nas fontes da pracinha, mas a maioria ia se deliciar primeiro com o sanduíche e a média de café com leite.
Depois,de mais algumas horas com os trazeiros adormecidos nos bancos duros de madeira do caminhão, quando tudo parecia só sofrimento, e um quase arrependimento abatia o pessoal, um e outro mais sabido, anunciava a proximidade da Serra do Mar.
Ânimo, palmas, as mulheres começavam a preparar as bolsas de lona listrada que guardavam, no seu interior, marmitas de virado, de feijão, frango na farinha de mandioca, arroz, ovos fritos, salsichas no molho, sem falar das bebidas, muita cachaça, batidas de frutas e guaraná ”Joaninha” nas garrafas “caçulinhas”, porque eram bem pequenas.
Seis, sete horas após a partida e eis que se chegava à Água Tuba, um lugar magnífico, um mirante natural que oferece, no topo da serra, a alguns metros antes do início de sua descida, a visão do oceano lá embaixo, entrecortado pelos morros que se esquecem preguiçosamente nos caminhos das praias, como que estendendo o braço até tocar o mar, água e terra revezando-se em recortes mágicos, de tirar o fôlego de qualquer viajante. Ali, pararam como todos faziam e fazem até hoje.
O pai da menina da vila, que viajava como ela pela primeira vez, mal agüentava uma forte dor de estômago e teve de se deitar uns minutos de bruços na relva, à beira da Estrada, para mastigar umas folhinhas de losna amarga, uma erva medicinal, facilmente encontrada, e que uma senhora prevenida havia levado com ela.
Enquanto isso, as mulheres estendiam as toalhas sobre uma àrvore ao lado do Bar do Tunico, um homem que atraía os fregueses servindo pão com uma lingüiça que ele cortava ao meio no sentido do comprimento e assava na chapa do fogão à lenha, usando um ferro de passar roupas, bem antigo e aquecido à brasa, pesando o mesmo sobre o pão e a lingüiça enquanto assavam.
As mulheres, sem se importar com o atrativo do Bar, expunham as comidas já frias, mas nem por isso, menos saborosas.
Então, tudo foi esquecido, e o entusiasmo, para a felicidade de nossa menina, voltara a fazer o grupo sorrir e cantar. Comeram, beberam, e com as forças recuperadas, voltaram ao caminhão e aos seus lugares para descerem a Serra do Mar. Não deveria demorar muito mais. O mar parecia ali mesmo...diante de seus olhos.
Começou o calvário da descida. Mata tropical fechada e pirambeiras que pareciam não ter fim apresentavam- se diante dos olhos estarrecidos de todos.
Às vêzes de um lado, outras vêzes do outro, as curvas da estrada, até hoje chamadas de “cotovelos” por tão bruscas e fechadas, retorciam o caminhão que rangia e pendia como um grande conjunto desajeitado de ferro, madeira e borracha, vencendo vagarosamente os obstáculos.
As pessoas seguravam com força aos bancos ou umas às outras e o silêncio era quebrado apenas pelas blasfemas dos incrédulos ou pelas rezas ou pedidos de ajuda aos Santos dos mais fiéis.
E nem haviam chegado ainda à famosa “pedra da onça”, uma grande pedra que se pronunciava do barranco, fazendo com que o motorista procedesse manobras estratégicas para não se esbarrar nela. Era bem lá de cima dessa pedra, que algumas pessoas juravam ter visto a onça pintada, toda imponente, nas noites de lua cheia. Dizem que seus urros e uivos assustavam os caminhantes. Mas o sol escaldante, descartava a possibilidade de lua cheia e de onça pintada, disso pelo menos, todos naquele caminhão, tinham certeza.
Quando passaram pela Cruz de Ferro, uma cruz mais alta que um homem, cravada em uma das últimas curvas da Serra, alguns gritaram ao motorista que parasse e depositaram toalhas bordadas em volta dos braços dela, costume mantido até hoje, por muitas pessoas que passam no local. Aproveitaram o “stop” e tomaram mais um cafezinho esquentado em espiriteiras a álcool e retomaram a jornada.
De repente, como que por encanto, as curvas tornaram-se mais suaves e a descida quase imperceptível. Foi então que a menina ouviu uma voz lá do fundo do caminhão:
_Já chegamos, turma! Estamos na várzea, daqui apouco, chegaremos à Ponte do Carretel e já estaremos quase lá.
Que alívio!! A menina não agüentava mais. Estava branca, suando frio e enjoara o caminho todo. A cada ímpeto de ânsia que lhe fazia contorcer o corpinho, sua mãe lhe oferecia uma toalha de banho que trouxera especialmente para os enjôos dela.
A Ponte do Carretel era famosa por provocar um “frio na barriga” quando se passava de carro sobre ela, já que seu formato de carretel faziam a subida e a descida rápidas demais, tirando o fôlego dos passageiros. E assim aconteceu no caminhão, gritarias, suspiros e ais, como quando se anda numa montanha russa.
Agora o terreno da estrada mudara para um caminho arenoso e esburacado. Uma asa aqui, outra ali, índios vendendo palmito, a beleza úmida do Horto Florestal, tudo era uma completa novidade para a nossa menina e seus amigos. A Serra ficara para trás. Nem descidas, nem subidas. E as casinhas simples dos caiçaras pintando o quadro da paisagem.
Não chovera durante a viagem, mas agora, enquanto entravam na pequena cidade, a julgar pelas poças de água, parecia que uma forte chuva acabara de cair. Só havia uma rua calçada, a principal de Ubatuba, A da frente da Igreja da Santa Cruz, que fica até hoje numa pracinha linda.Todas as outras ruas eram de pura areia batida e que se esburacavam facilmente com as chuvas.
O caminhão estacionou bem na praia do centro, a Praia do Cruzeiro que deve o seu nome ao fato de ter sido bem ali, o lugar onde o Jesuíta Padre Anchieta escreveu seu “Poema à Virgem” poucos anos após o descobrimento do Brasil durante a catequização dos índios.
As pessoas, inclusive a menina e seu pai, desceram do caminhão e correram em direção à praia, afundando os pés na areia macia, aspirando aquele cheiro tão novo de iodo que lhes entravam narinas adentro pela primeira vez. Queriam logo tocar aquela água, levá-la à boca para sentir se era mesmo salgada. Mas tinham medo de que o sal os acordasse do sonho que estava bem ali na frente deles.
Foi num ímpeto que seu José abaixou-se tocando as espumas borbulhantes da onda que veio lamber sue pés ainda calçados. Junto com essas ondas, veio um peixe se contorcendo num perereco de sobrevivência. Seu José enlouqueceu de emoção, esqueceu-se de que estava com sapatos e meias e entrou mar adentro correndo atrás do peixe saltitante. É claro que não conseguiu agarrá-lo, mas valeu a descontração das pessoas que riram até não poder mais ao vê-lo todo molhado com a roupa a grudar-lhe ao corpo. Ele não se incomodou, mas não parava de pensar em como haveria de estar cheio de peixes esse mar do qual tanto lhe falaram.
Depois, foram acomodar-se no “Casarão DR Félix Guisard”, dono da C.T.I., a fábrica de tecidos de Taubaté, hoje, prédio da FUNDART, uma fundação cultural que ocupa o majestoso casarão tombado como Patrimônio da Humanidade. Ele fica ali mesmo na Praia do Cruzeiro, ao lado do portinho dos pescadores e do mercado de peixes, às margens do rio que ali mesmo encontra o mar.
Esse belo casarão era gentilmente cedido pelo DR> Félix, aos empregados de sua fábrica todos os anos pelo verão. Essa cumplicidade entre patrão e empregados, selava uma época áurea de crescimento da Fábrica e era bem aceita pelos operários que se revezavam na ocupação da bela mansão.
Na manhã seguinte, após uma noite de descanso, eles foram explorar as redondezas. Para chegar à Praia do Perequê, precisava-se apenas atravessar a “ponte do Perequê”, uma ponte de madeira sobre o rio que deságua ali mesmo na Praia do Cruzeiro, em frente ao casarão. Depois da ponte, era só percorrer aquele caminho de sonhos de areia macia, úmida, de guaiamus desfilando, de flores brancas perfumadas, de água para se beber na cuia e de Mata Atlântica sombreando o caminho...
A menina da vila agora segurava com força a mão de seu pai e não cabia em si de tanta felicidade por fazer parte daquela barulhenta procissão de operários em férias. Todos em maiôs de banho e os homens mais fortes carregando monstruosas câmeras de pneus, devidamente cheias de ar para flutuarem como bóias.
Já estavam bem no meio da travessia da ponte, quando a menina resolveu olhar para baixo. Seus pezinhos eram tão miúdos que poderiam passar pelos vãos que separavam uma tábua da outra. Seu coração bateu mais depressa quando ela viu, por entre as frestas das madeiras, o rio lá embaixo invadindo ruidosamente as águas do mar. O pânico instalou-se.A menina estancou-se. Seus pais a puxavam sem entender nada.E ela gritava: _”Eu vou cair no buraco!” Sem parar de olhar para baixo, ela imaginava que aquela disputa entre as águas do mar e do rio era pelo seu frágil corpinho que certamente vazaria para lá no seu próximo passinho.
Seu José Simões entendeu, por fim, o medo da filha e colocou-a sobre os ombros. Seu medo agora era que o seu pai caísse entre as largas frestas, mas como confiava demais nele, acalmou-se.
Quando afinal, já fora do perigo, seu pai a coloca no chão, a menina olha para baixo e inicia o berreiro.A chuva que caíra durante toda a noite, deixara grandes poças d´água que àquela hora da manhã, refletiam um céu azul povoado de brancas nuvens que, como tufos de algodão, passavam velozmente , dando à menina uma exata sensação do nada colorido, do vazio, do infinito azul e branco. Ela pára.
_O que foi agora, menina?.Perguntam-lhe os pais.
_Eu vou cair no céu, vamos cair no fundo do céu...
Seu José agarrou-a pelos ombros e num tratamento de choque, fê –la pisar o chão no meio da poça d`água e lhe apontou o céu sobre eles, o mesmo céu refletido na água.
Ela parou de chorar, experimentou uns passos. Sorriu. Adorou. E agora, divertia-se pisando forte a poça d`água e desmanchando a cara do céu.
Seus pés tocam, agora, a areia macia do caminho da praia.fazendo-lhe cócegas.Ela olha para trás e vê a ponte bem longe. Terá de passa - la na volta...
À sua frente, o mar.Seu maiô de lã verde,com uma borboleta colorida bordada no peito, começava a assar-lhe entre as pernas.Mas ela não reclama, já dera trabalho demais naquela manhã.Tudo o que ela queria era entrar naquele verde que a esperava.
O caminho termina bem no canto inicial da praia onde uma costeira de pedra e um morro de terra nativa embelezam ainda mais o lugar. A areia aqui é escura e batida por toda a extensão da praia.Dizem as pesquisas, ser ela medicinal, monazítica, curativa nos casos de reumatismo.
Aquela turma alegre que viera com a menina, instalou-se , como de costume na época, no único quiosque da praia, o famoso “Rancho do Galo”.Todos se concentravam ali, era o “point”.
A praia do Perequê é imensa, mas se chegar até o riozinho da Barra Seca que deságua bem no meio dela, já era aventura para poucos. Imagine então, atravessa-lo e ganhar a Praia Indaiá, do outro lado...nem pensar.As paisagens inexploradas eram muitas, as dimensões de distâncias eram outras, quase ninguém tinha carro na década de cinqüenta, e os caminhos de sonhos praticáveis , podiam ser contados.Chegar até Ubatuba era privilégio de poucos, uma verdadeira aventura. Atravessar a Ponte do Perequê e chegar à praia, conhecer o mar ,considerava-se uma vitória. Então, para que mais? Ficava-se por ali mesmo, deixando-se na primeira parada, o que já era bom por demais.Antes do meio dia já estavam todos bêbados, mesmo os que não provavam da batida de coco do Rancho do Galo. Bêbados de felicidade. Mulheres em maiôs de látex , homens em calções de “banlon” como se dizia, e as crianças em maiôs de lã.Corriam, jogavam bola, nadavam, boiavam nas câmeras de ar, faziam castelos na areia, assavam-se ao sol, ou se franziam de molhados na chuva.Tudo era festa. Precisavam aproveitar que aquilo era coisa de acontecer raras vêzes na vida daquela gente.
A nossa menina só gostou do mar no último momento de praia do derradeiro dia da viagem. Não era mesmo “do contra”, essa garota?
Mas também tinha muita sorte. Seus pais apaixonaram-se pelo Ubatuba, compraram ali uma pequena casa e voltaram sempre por ocasião das férias escolares.
E foi assim que, desde menina, os contornos de montanhas verdejantes, o reflexo delas no mar, o perfume das flores brancas, o cheiro forte de peixe , barcos e maresia nas estreitas ruas que rodeiam o mercado de peixes, a vista do casarão dos Guizard quando o contemplamos da Ponte do Perequê, o vento noroeste assanhando os coqueiros e amendoeiras num abraço quente anunciando chuva...tatuaram-lhe a alma e se fizeram pano de fundo preferido na sua vida , o cenário de esperança e força que lhe vem sempre à mente a resgatar-lhe sonhos... E o farol...Esse completa a obra como na pintura de um quadro dizendo àqueles que ainda têm a alma menina: Vigiai sempre, mantenha a luz... e deixe essa paisagem infinitamente o enternecer...
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