Carta da França
Silvinha Simões
Era o dia 18 de novembro de 1998. Eu acabara de chegar no mês de a gosto para morar na França. Meu tempo de licença, os três meses que temos para ficar num país estrangeiro, estava aspirando. Assim que, naquela manhã, estávamos na estrada rumo à Marseille para dar início ao processo da minha Carte de Sejour , uma carteira que nos habilita a permanecer até dez anos
Há tempos, pensávamos ir a Marceille. Ela é a segunda cidade mais importante da França, na disputa com Nantes, também no páreo pelo segundo lugar. Meu marido queria me mostrar o cais do porto e seus arredores de mercados, feiras, comidas típicas e todo o ambiente do comércio mais antigo do mundo.
Como sempre, faltou algum documento, e depois de enfrentar o característico mau humor dos atendentes franceses, eu saí do departamento de estrangeiros, apenas com uma carta provisória em mãos. Teríamos de voltar mais uma vez pelo documento. Mas, tínhamos quase o dia todo para explorar o lugar, sem contar a casa da tia Clemence e do tio Hopp os quais eu ainda não conhecia pessoalmente.
Andar pelos mercados de Marceille é como encontrar um pouquinho do Brasil. Lembra muito o Mercado Central de São Paulo, só que exposto nas ruas da cidade antiga. Quando algum brasileiro, radicado lá, pensa em fazer uma feijoada, é em Marceille que ele manda buscar os apetrechos. É só ali onde você encontra, por exemplo, a farinha de mandioca, a couve, a carne salgada, a pinga, etc. O mercado é uma mostra do que acontece no mundo, onde as raças exibem o que têm de mais típico.
No cais, em meio ao burburinho do movimento de navios mercantes, os barcos à vela, enormes e bem equipados, levam ao passeio nas “calangas de Cassis”. Calangas são aquelas entradas bruscas que o mar construiu rochedos adentro. E a atração da viagem é entrar de escuna em cada entrada dessas, admirando a altura das falésias à nossa volta, com a sensação exata da nossa pequenez diante da paisagem de altos rochedos parecendo nos esconder, engolir-nos na casquinha de nozes que a escuna representa entre a imensidão de rochas e o lago salgado, agitado, e de águas transparentes.
O fundo dos barcos é de vidro de onde podemos assistir o incrível balé dos peixes, algas e outros bichos do fundo do mar. E, cada entrada numa calanga é uma emoção diferente. Num passeio se visitam sete ou oito calangas. Nem precisa dizer que, após irmos ao mercado, fomos fazer esse trajeto de barco.
Hora do almoço, empapuçamo-nos com uma boa daquelas paellas que estão a cada esquina da cidade velha , ou sendo servidas nos restaurantes do lugar. Após um sorvete de café, rumamos os quatro, sim , porque meus cunhados Marie e Robert estavam conosco, à casa de tata Clemence na rue Paradise. Cumprimentos, cafezinho e visita à Igreja de “Notre Dame de la Garde”, ali pertinho da casa dela.
Construção de 1800, ela é um verdadeiro Forte usado nas Grandes Guerras. Fica no alto de um morro a 185 m acima do nível do mar, aos quais se sobe por uma escada infinita, e de onde, uma vez lá em cima, avista-se toda cidade e o mar. A imagem de Notre Dame de la Garde está plantada na torre mais alta da igreja, de onde pode ser vista por toda Marceille. Dourada com 4 folhas de ouro puro, sua luz resplandece abençoando a cidade.
Estendendo o olhar pelo oceano lá embaixo, avistamos a tão famosa, quanto pequena, uma ilha abrigando o “Chateau Diff” da história que deu origem ao filme Papilon. Amei o passeio.
À Bientot
Silvinha Simões
Cassis
Bem, meus queridos, na semana passada, eu lhes contei um pouco de Marseille e do passeio de barco pelas calangas da cidade de Cassis, vizinha de Marseille. Hoje, vou continuar descrevendo as calangas, de um outro ponto de vista, a vista de cima, pela estrada que acompanha, geograficamente, todos os contornos dos penhascos ou falésias.
Você pode, como nós fizemos uma das vezes em que lá estivemos, fazer o passeio de barco nas reentranças das calangas e, depois, contorná-las de carro por cima das falésias. Os belvederes se sucedem infinitamente. Todas as paradas durante o percurso são dignas de serem vistas. O difícil é escolher onde parar, já que, basta se aproximar de qualquer beira de precipício para você se deparar com visões de tirar o fôlego.
Os barcos, navios ou escunas, de onde se pode ter estado horas antes vendo tudo de baixo para cima, agora, viraram formiguinhas, casquinhas de nozes lá embaixo, no azul transparente do oceano que beija escandalosamente as rochas das falésias, num espetáculo de dar vertigens, tanto visto de baixo, quanto de cima.
É uma verdadeira sensação de se ver tudo de um avião em pleno vôo. Nesse dia, levamos um piquenique, prática comum na França. O francês sente fome, pára nas formidáveis instalações de “área de descanso” nas estradas, ou mesmo em qualquer paisagem escolhida, tira seu piquenique e come. Quase todos levam mesinha e banquinhos nos carros, só para isso.
Depois, resolvemos esticar o passeio até La Ciotat, uma cidade dona de um dos maiores estaleiros do país, construindo barcos e navios para toda Europa e o mundo.
Meu marido aproveitou para me contar sobre seu primeiro emprego num estaleiro naval em Tarascon, quando ele tinha apenas 14 anos. Trabalhar como aprendiz de marceneiro construindo barcos, durante 3 anos, rende-lhe hoje, uma aposentadoria proporcional, claro, ao tempo de serviço, a qual lhe é legalmente enviada pelo correio. A quantia faria rir a qualquer um, mas, a seriedade das leis é de tirar o chapéu, não é? Ele só deixou o emprego porque seu pai veio para o Brasil quando ele tinha dezessete anos. Embora sua vida profissional na Olivete tenha lhe mandado várias vezes de volta à Itália e à França, quando lhe perguntam se ele é francês, ele responde: “_Se ainda restou alguma coisa...”. Mas seus hábitos e tradições ainda estão lá, e afloram a cada momento, como se ele fosse ainda o garoto que fazia navios no estaleiro de Tarascon.
Agora, antes de terminar, que tal descobrirem o gosto de um aperitivo feito à base de creme da fruta cassis? Você não precisa conhecer as maravilhas das calangas para apreciar essa saborosa bebida: uma parte de creme de cassis e duas de vinho branco suave ou seco, depende de seu gosto. Pronto! Você já terá experimentado o famoso “Kir”. A pronúncia é Kirrrrr, e ele é servido freqüentemente na França como aperitivo antes do almoço.
Tin-tin, a bientot!







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