quinta-feira, 30 de agosto de 2018


Cartas da França
Quinto Capítulo


Primeiras impressões da França

Quando chegamos, eu e Antoine, a Tarascon, na Provence, terra natal do meu marido, o agosto dançava ainda ao ritmo dos pífaros e farândolas. Desfiles, festas medievais, teatro de mambembe, corrida nas arenas, toros na rua, e manejes faziam a alegria das crianças e turistas. O cheiro da lavanda recém colhida, queijos e vinhos, cores e luzes  trouxeram e trazem para cá, os melhores pintores do mundo.
       A França prepara seu outono. As folhas dos pleupiers e dos platanes são as primeiras que amarelam e caem ao vento...
       A Provence de Van Gogh perde seu azul anil, sua luz ofuscante. Os girassóis, a lavanda, a verde clorofila forte das ervas que contrasta com o branco calcário das” montanhetas”, tudo se esmaece  aos poucos...
       Os barcos, nos canais do Midi, recolhem-se. O amarelo, o marron e o vermelho começam a pincelar a Natureza!
       Eu escrevo esse artigo à sombra de um platanus majestoso, aproveitando um lindo pôr–do-sol na cidade de Vedene, Avignon. O Chemin de La Lorrene,  a bucólica estrada que nos trouxe chez Michele e Jean, ainda está repleta de violetas que resistem. A casa deles é linda e o platanus que me abriga fica no seu jardim. Que cenário!
       Ontem, em Saint Remy de Provence, 250 pintores nas ruas e praças mostravam retratos e paisagens de moinhos, toros, arlesianas, oliveiras, la Camargue, cabanons, vinhas. Uma exposição fechando o verão.
       Hoje, em Avignon, no dia anual “ Portes Ouvertes” pudemos gratuitamente extasiar nossos olhos nos  museus e monumentos, igrejas e palácios da cidade, num evento que acontece na França inteira. Isso acontece uma vez por ano no verão.
       Mas o encanto não acaba com o verão provençal. Os matizes do outono, as frutas, o aconchego dos ambiantes aquecidos, a conversa a table entre amigos, fazem-se presentes como num piscar de olhos. Um jilé nos ombros hoje, o abandono dos ambiantes no terrraço amanhã, os ventos Mistral e Tramontano soprando forte lá fora, tudo muda em uma semana ou duas. A TV. Mostra, nos noticiários, quantos minutos de sol perdemos a cada dia.
       Nas ruas, uma presença nova : estudantes barulhentos voltam às aulas. É a rentrée como eles dizem.
       Magicamente, uma mudança outonal, como todas as trocas de “saison” aqui, acontece docemente, mas, poeticamente, forte como um bom trago de vinho rouge sec do “Côte du Rhône”.
      

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