Cartas da França
Quinto Capítulo
Primeiras impressões da França
Quando
chegamos, eu e Antoine, a Tarascon, na Provence, terra natal do meu marido, o
agosto dançava ainda ao ritmo dos pífaros e farândolas. Desfiles, festas
medievais, teatro de mambembe, corrida nas arenas, toros na rua, e manejes
faziam a alegria das crianças e turistas. O cheiro da lavanda recém colhida,
queijos e vinhos, cores e luzes
trouxeram e trazem para cá, os melhores pintores do mundo.
A França prepara seu outono. As folhas
dos pleupiers e dos platanes são as primeiras que amarelam e caem ao vento...
A Provence de Van Gogh perde seu azul
anil, sua luz ofuscante. Os girassóis, a lavanda, a verde clorofila forte das
ervas que contrasta com o branco calcário das” montanhetas”, tudo se esmaece aos poucos...
Os barcos, nos canais do Midi,
recolhem-se. O amarelo, o marron e o vermelho começam a pincelar a Natureza!
Eu escrevo esse artigo à sombra de um
platanus majestoso, aproveitando um lindo pôr–do-sol na cidade de Vedene,
Avignon. O Chemin de La Lorrene, a
bucólica estrada que nos trouxe chez Michele e Jean, ainda está repleta de
violetas que resistem. A casa deles é linda e o platanus que me abriga fica no
seu jardim. Que cenário!
Ontem, em Saint Remy de Provence, 250
pintores nas ruas e praças mostravam retratos e paisagens de moinhos, toros,
arlesianas, oliveiras, la Camargue, cabanons, vinhas. Uma exposição fechando o
verão.
Hoje, em Avignon, no dia anual “ Portes
Ouvertes” pudemos gratuitamente extasiar nossos olhos nos museus e monumentos, igrejas e palácios da
cidade, num evento que acontece na França inteira. Isso acontece uma vez por
ano no verão.
Mas o encanto não acaba com o verão
provençal. Os matizes do outono, as frutas, o aconchego dos ambiantes
aquecidos, a conversa a table entre amigos, fazem-se presentes como num piscar
de olhos. Um jilé nos ombros hoje, o abandono dos ambiantes no terrraço amanhã,
os ventos Mistral e Tramontano soprando forte lá fora, tudo muda em uma semana
ou duas. A TV. Mostra, nos noticiários, quantos minutos de sol perdemos a cada
dia.
Nas ruas, uma presença nova : estudantes
barulhentos voltam às aulas. É a rentrée como eles dizem.
Magicamente, uma mudança outonal, como
todas as trocas de “saison” aqui, acontece docemente, mas, poeticamente, forte como
um bom trago de vinho rouge sec do “Côte du Rhône”.

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