quinta-feira, 8 de outubro de 2020


   Saudade, privilégio da Língua Portuguesa


         Já nos primeiros grunhidos da fala dos nossos ancestrais das cavernas, proferidos, então, por um ensaio ainda do homem como o conhecemos hoje, e, tendo sua origem naquela que se evoluiu como espécie humana Portuguesa, podemos imaginar gemidos enlouquecidos dessa criatura ao perder alguém do grupo na luta desenfreada pela subsistência, e, na vontade de expressar essa falta, balbuciar, sons suaves e tristes, parindo os primeiros fonemas do que seria hoje, evoluída, a palavra Saudade. 


Nenhuma outra língua exprimiu a dor da falta de alguém, ou de um perfume que traz a infância, nem o que nos faz suspirar docemente na lembrança de momentos felizes... numa única palavra de 7 letras.


         Desde os autos de Gil Vicente, Os Lusíadas de Camões, Casimiro de Abreu, Heterônimos de Pessoa, Castro Alves, Saramago, Drummond, e mais uma constelação de poetas, profetas, cronistas da Língua Portuguesa têm empregado infinitamente e com propriedade essa palavra: Saudade.


         “I miss you”, diz o inglês, “Tu me manques”, o francês. “Mi manchi”, reclama o italiano, “Vermisse dish so sehr”, chora o alemão... e outras tantas muitas palavras não citadas, agora, barradas pela minha limitação no conhecimento das línguas faladas de outros recantos tantos...


         Também nós, lusófonos, podemos usar o verbo faltar nas expressões de perdidas presenças...


         Não precisamos. Temos um substantivo cheio, completo, intransitivo, que jorra o que sentimos: SAUDADE!


         Que saudade! Não é ação, é sentir! Nunca será verbo, nem declinável.


         Sentimento abstrato, bagagem de uma palavra aquinhoada há milhões de anos enquanto nossa língua evoluía.


         Foi nos entregue já pronta e bela.


         Use-a. Chore com ela, sorria também, possibilidades mil para lembranças infinitas de uma vida!

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