A menina e a bicicleta
A tarde caíra cedo naquele dia de
primavera. O sol desaparecia na Serra da
Mantiqueira quando seu pai faz barulho no portão. O coração da menina bate mais
rápido. Ele aparece casa adentro empurrando sua bicicleta. Está cansado, suado, queimado do sol, as
veias crescidas na fronte latejante. Pedalara até o município de Redenção da
Serra levando intimações do Fórum, era oficial de justiça. .A luz morteira da
sala, mostrou à menina a figura abatida do pai.
Enquanto isso, ela recuava a cortina estampada, que separava a sala da
cozinha, para que ele passasse com a bicicleta. Ainda teve tempo de reparar na
presilha que lhe prendia a barra da calça antes que sua figura desaparecesse no quintal.
Sua mãe destapou a sopa fumegante no fogão à carvão, e a provou. Ainda
estava quente. Seu pai jantaria antes do banho reconfortante.
A
menina ainda não ouvira falar em psicologia familiar e mal seu pai sentou-se à
mesa, ela disparou:
-Pai,
posso andar na sua bicicleta?
-Não,
minha filha. Ela é muito alta , o quadro atrapalha e você pode cair.
-Não
vou cair, não, pai. Eu já sei andar! Ah, deixe...
-Deixe
seu pai comer em paz, menina! Disse-lhe a mãe servindo a sopa. Seu pai gosta de
todos à mesa nessa hora. Sente-se e coma!
-Ah!
Deixe, vá, pai...
E
a menina segurava a guarda da cadeira e sobre os ombros do pai...
-Deixe,
pai, eu não caio!
-Está bem, vá. Mas se você se machucar, eu não
vou curar ninguém, ouviu, moça? Pode ir, mas já sabe.
A
menina mal agüenta o peso da bicicleta, e com sacrifício, leva-a até a rua.
Segura os guidões, passa as magra perninha
direita por debaixo do quadro, pisa o pedal direito, equilibra-se,
procura com o pesinho esquerdo o outro
pedal e...lá vai ela rua abaixo.
Lembrava um macaco-aranha com as mãos acima da cabeça segurando os
guidões, o corpinho torto do lado esquerdo desviando-se do quadro, a perna
direita buscando o pedal direito...trabalho de contorcionista. O selim, vazio,
sem função, só atrapalhava a manobra.
Seu coraçãozinho dispara. E agora? A esquina está chegando rápido
demais!!!Como eu faço o retorno? Sentia o tremor das pernas.
Ela procurou os freios. Suas mãozinhas suadas, eram pequeninas demais para alcançá-los. Os
dedinhos esticados, tesos... “não consigo alcançar o freio debaixo do guidão!!!”
ela pensou desesperada. Não poderia olhar para procurá-los, teria de levantar a
cabeça ou como enxergaria o que lhe vinha pela frente? Claro! Impossível!!
Sem alternativa, ela deu uma guinada rápida para a esquerda. Tinha de
fazer a curva mesmo naquela velocidade desenfreada da descida.
Tentou. Mas não contava com o banco de
areia formado pela enxurrada das águas da chuva que, talvez com o mesmo medo da
menina, tentava fazer a curva à esquerda e, descontrolada, depositava ali a areia trazida de longe.
Pobre menina! As rodas se derraparam e ela sentiu a bicicleta pesando
sobre seu corpinho. Viu a cerca de arame farpado do canteiro da avenida crescer
e se aproximar, chocando –se com ela
num impacto surdo .
-Meu
rosto!
Foi seu único pensamento. Ainda com a bicicleta pesando sobre ela
e arrastando
–a contra a cerca, ela grudou com a mão esquerda o arame e, com toda a sua frágil força, afastou as
farpas metálicas que, como garras de um conto de terror, visavam seu rosto.
Ficaram assim, não se sabe por quanto tempo: menina, arame e bicicleta,
num abraço indecifrável.
Rua deserta. À frente, o canteiro de mata densa, escuro como breu. O ar
morno trouxe o cheiro do capim amassado. Ficou cristalizada, imóvel,
esperando... Mas, o quê? Ela não sabia. Precisava esperar. Não poderia se mexer
sem se machucar.
-Papai
avisou... Balbuciou a menina.
Não sentia dor. A dor vinha de dentro dela, a vergonha de ter de chegar
à casa e encarar o seu pai: “ Eu não falei?”
De repente, a cortina de chita
estampada se abre e surge Dona Sílvia outra vez na sala:
-
Venha ver, Zé! A menina se machucou mesmo!!Ah, meu Deus, minha filha, como foi
isso?
Seu
pai se levanta da mesa e, pálido, toma o braço da menina.
-
Fique calma, minha filha! Sílvia, traga uma toalha limpa e vá chamar seu pai.
Vamos levá-la ao hospital.
O
avô chegou em um minuto. Estavam todos nervosos. A mãe chorava.
O
pai sentou a menina no quadro da bicicleta que felizmente não sofrera danos,
amarrou a tolha no braço da pequena, o avô trouxe outra bicicleta, e lá se
foram os três ao pronto socorro.
Não
havia médicos àquela hora na Santa Casa. O enfermeiro de plantão fez o que
sabia para estancar o sangue: pontos de metal no corte do braço e pequenos
curativos na região do pulso, na palma da mão e na ponta do dedo anelar.
As
cicatrizes ficariam para sempre em seu braço e lhe lembrariam as consequências
amargas de uma desobediência.
O
pior foi a tipóia que ela teve de portar por longos vinte dias denunciando o
seu acidente o que a obrigava a responder infinitamente aos curiosos:
-
O que foi isso em seu braço, menina?
-
Eu teimei com meu pai e fui andar de bicicleta e ...blá ...blá...blá...blá...

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