terça-feira, 9 de fevereiro de 2021


A menina e as Bonecas     

            O pai da menina, seu José, era oficial de justiça. Um título imponente mas que não lhe rendia o suficiente. Nunca se soube porque eles vieram morar numa vila tão operária como a Vila das Graças,  distante da Praça do Bosque, e do antigo Campo de Futebol do E.C. Taubaté, locais esses, vizinhos ao Prédio do Fórum. Talvez quisessem ficar mais perto dos parentes, todos trabalhadores da Fábrica.

            Os avós maternos da pequena, só tiveram a mãe dela como filha. Operários incansáveis, e não tendo dependentes em casa, faziam, com gosto, realizarem-se todos os   sonhos da menina. Assim, os vestidos de batizado,  primeira comunhão, quinze anos, casamento, teriam sua avó como fada madrinha. Seus  brinquedos, sapatos, material escolar, também vinham dela. Era uma mulher forte, sua avó Gertrudes, a “vó Tuda”.Gostava de falar o que pensava, e foi para a menina, um espelho de luta e trabalho, independência e altivez. Constrangia –se com as demonstrações de carinho da neta, mas derretia-se por dentro:

            -Não faça isso, menina! Ai, Jesus, você me sufoca!

            Fingia uma braveza que o sorriso desmentia.

            E como era bom acompanhar a avó às costureiras! Sentir o cheiro dos tafetás, organdis, anarrugas e rendas...Experimenta, aperta, alfineta, corta...Herdaria para sempre a vaidade da “vó Tuda”. E como era linda sua penteadeira!... A menina levaria vida afora, o desejo de possuir uma penteadeira como a de sua avó: os perfumes Damosel,  Promessa, Madeira do Oriente...os cremes de alface para o rosto, o tônico de quina –petróleo pro cabelo do avô...Ah! Um dos perfumes, vinha envolto num balainho de palha, lindo! O pó de arroz... o batom muito vermelho nas embalagens de lata dourada...Ela adorava observar aquela mulher já madura, mas não velha, a empoar-se para sair. Com sorte, a avó até a deixava sentar-se na cama limpa e cheirosa do casal, com a pera da luz e seu fio comprido dependurado na guarda... e como era lindo aquele lençol bordado a mão...

            Todo Natal, era certo que a menina ganharia uma boneca dos avós. Eram sempre de porcelana, as bonecas, lindas!  Um ano, ela ganhou uma vestida de noiva, com buquezinho, aliança e tudo. Que vontade de brincar com elas, mas não podia. Estavam sempre em cima do guarda-roupas para não se estragarem. Mas a Sofia, ah!...Aquela era especial. Podia mexer os olhinhos!

            -Mãe, posso pegar a Sofia para brincar comigo de fazer comidinha?

A mãe da menina olhou-a bem...

-Está bem, vou lhe dar um pouco  de feijão e arroz crus, mas depois você tem de guardar tudo, heim?

            A menina subiu na cadeira, pegou a Sofia de cima do móvel, suas panelinhas, o feijão, o arroz e foi para o quintal, feliz da vida por sua mãe deixá-la brincar com a boneca.

            Ao cair da tarde, as nuvens apagaram o sol e um pé de vento assanhou os cabelos da boneca e rolou as panelinhas pelo quintal.

            -Entre que vai chover, filha! Gritou-lhe a mãe    

            Foi uma semana triste aquela. Uma chuvinha fria caíra todo tempo prendendo as crianças em casa.

            Na primeira estiagem, a mãe da menina saiu para estender umas roupas no varal. Perto do canteiro de couve, ela se deparou com uma cena horripilante!

            -Filha, venha aqui, já!

            Sofia jazia semi enterrada no barro, e no lugar de seus olhos, brotos viçosos de feijão haviam crescidos:

            -Ah!, sua avó vai ficar sabendo disso!!!!

A menina nunca mais ganhou boneca no Natal.


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