Estou cansada
A agenda me engole
o tempo me vence
chega sempre no antes
a todas as chegadas
Sinto-me atrasada
corro tanto e não chego
chego sempre mal chegada
cumprindo, comparecendo
esquecendo, atropelando
cabeça rodando as datas
que chegam antes
muito antes do eu real
vivo em dois mundos:
entre aquele que corre
nas ruas, jardins, escola
e caminhos dos que amo
e o meu mundo pretensioso
que pensa que consegue
correndo em busca
do tudo que chega antes
veloz, sem me prevenir
apenas chegando aos tropeções
como se fosse normal
o vendaval de horas afunilando
um túnel abstrato e sem fundo
Quero pois que o mundo pare
na velocidade atemporal
e volte para as ancas de um cavalo
em marcha miúda a dançar
ou que ele venha chegando
puxando charretes enfeitadas
rosas margaridas e violetas
colhidas no caminho estelar
Quem sabe assim
eu cavalgasse o tempo
de trote lento e permissivo
gentil cavaleiro esperando
minha vida respirar
vida arrumada e tempo pra tudo
Até para amar

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