quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Carta da França

Hábitos à mesa.


Estávamos quase terminando de preparar o almoço. Robert , meu cunhado, e Antoine, meu marido, preparavam a mesinha de aperitivo. Batem ao portão.
         _ Quem será? Diz Marie, minha cunhada, enxugando as mãos. Abre a porta. “ C´est pas possible, Fifine notre cousine!”
         Beijos, que o francês adora, três, às vêzes quatro, Ça va? E abraços, uma profusão de interjeições. Mas, eu que após apresentações, estava ainda no impacto do feliz momento, não acreditei que falassem seriamente, quando a prima Fifine (Josephine) , desculpando-se por chegar `aquela hora, pergunta sobre um bom restaurante em Tarascon. E mais espantada ainda fiquei, duvidando até do meu francês, quando Marie, com a cara mais natural do mundo, indicou-lhes o restaurante da praça. A prima e o marido deixaram a mala, despediram-se, e prometeram que voltariam para o cafezinho, se não fosse incômodo.
         Na minha “brasileirice”, fiquei perplexa: _ Por que eles não ficam para o almoço, se vieram de Lyon, e se a intenção é de ficarem uns dias aqui? Perguntei à minha cunhada que é mestra em desfolhar as regras da cultura francesa aos olhos abobalhados dos brasileiros. Quando ela ergue a cabeça, imposta a voz, e o assunto permite botar a França na roda, parece que ouvimos de fundo, a “Marseillese”.
         _Como? Nós não os esperávamos senão à noite Ela é que deve estar envergonhada de chegar sem avisar.Ela come no restaurante e depois toma o digestivo conosco.É natural.
         _Ela não vai ficar zangada?
         Marie nem entendeu porque alguém pudesse imaginar que um francês estranhasse o fato de não comer na casa de alguém, sem aviso prévio.Para eles, é assim que funciona. Com o tempo, eu fui entendendo.A refeição deles tem normalmente, podendo aumentar com a importância da ocasião, cinco ou mais cursos:

a)       Aperitivo: pastis (anis),kir, vinho branco, granadine, martine, susy  etc...e os canapés.

b)       Entrada, pratos frios :salmon defumado, presunto cru, patês “maison”, saladas, legumes em conserva, azeitonas temperadas e em pasta (tapenade), legumes recheados, alcachofra, crustáceos, anchois etc, etc,...Vinho branco ou tinto (secos) e água, nunca, nunca refrigerante ou suco.Pão. Servido pelo dono da casa, sempre. É ele quem corta e oferece, e ai de algum desavisado que tentar fazer isso, ele já vai ouvir...
 Verão, mesas ao ar livre...Comunidade festeja o sol.

c)        Prato quente. Esses são infinitamente variados e as sugestões não chegam perto da realidade.Vou citar alguns, só para dar água na boca: massas, carnes e caças ao vinho (daube, civet) assados, gratin de legumes, béchamelle (molho branco) muito usado nos pratos quentes , peixes, moluscos e crustáceos etc...Vinhos tinto, rosé ou branco (seco) e água. Pão.



d)       Queijos Um caso à parte.Essencial. Tipos mil. Cabra, vaca, búfalo, cremoso, curado, curtido, temperado, forte, suave, embolorado, com bicho, sem bicho...Vinho branco ou rose (seco). Pão. Muito pão. Diferente do pão, no caso do queijo, cada um se serve. Uma vez, eu ouvi um “ Sílvia, serve!”Eu pensei que fosse para eu ajudar a servir o queijo e comecei a cortá-lo e servir aos outros.Foi discussão para meia hora sobre hábitos à mesa depois de se ouvir um sonoro “HO!!!!!!”Era para eu me servir e passar o prato...

e)        Dessert:frutas, doces, cremes, sorvetes, tortas, hum! Vinho branco ou rosé, suave ou doce, espumantes e cidras. O champagne, conforme o status da família, poderá ser servido do início ao final da refeição. Quanto às frutas, nunca pique um bago de uva como eu fiz uma vez. Você irá ouvir um OH!... E a explicação que no lugar de onde você retirou a uva, vai juntar mosquinhas, que vai ficar feio, mas tudo isso, com o pessoal muito bravo, e a impressão da Marseillese ao fundo e os passos da tropa alemã  marchando sobre as tampas dos bueiros das ruas, como o Antoine me contou que ouvia quando criança. O certo é se retirar o bago com seu cabinho que liga a uva ao cacho.



Reparem a parede de pedras do Studio onde moravam os eu e Antoine. Datam de mais de 300 anos


f)         Café e licores digestivos : Cafezinho, licores (vervene, tieul, são os mais consumidos) e a grapa. O chocolate de menta não pode faltar nessa etapa da refeição.

Agora, que se esclareça, que a dona da casa prepara tudo isso contando exatamente uma porção por pessoa. Um dia, meu enteado Almir , à volta do fogão, enquanto Marie preparava o almoço de boas- vindas para ele e a mulher Ivelise, “roubou” uma fatia de presunto que ela estava enrolando com melão. Ela não disse nada, mas na hora de servir, faltou uma entrada para ela. O Almir :”Você não gosta de presunto, tatá?” A que ela respondeu, de novo parecendo ouvir a Marceillese:”Você comeu a fatia que eu iria fazer para mim.”
 Viu, por que não podemos chegar à casa do francês, sem avisar? Eles não sabem receber de outra maneira e não estocam as coisas , não abarrotam o armário de compra. Não têm inflação, gostam de ir todos os dias ao supermercado e adoram compartilhar horas a mesa com suas visitas, para quem fazem questão de contar o esmero do preparo, onde encontraram os melhores ingredientes, as histórias dos vinhos, quanto pagaram por cada iguaria etc, etc etc. Á cada curso, os pratos são trocados, ou, se íntimos, os convidados limpam os pratos com miolo do pão servido todo tempo.E a presença da dona da casa, é indispensável, cabendo aos convidados esperarem por ela sempre que ela precisar sair da mesa para servir um novo prato, sem tocar a comida.
Salvaguardando as proporções da sofisticação, tanto as refeições especiais, quanto as do dia-a-dia, seguem os mesmos hábitos.
C´est ça. À bientot.





ERRATA: no artigo sobre as calangas deCassis, onde está “Papillon”, que se leia Conde de monte Cristo.











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