O muito e o pouco
Lá fora,
o muito que devora
aqui dentro, o pouco
vivo o mundo do de fora
não reconheço o pouco
que grita à noite
quando o escuro do quarto
me cobra impiedoso:
È você? Você existe?
mas não quero pensar
prefiro a engrenagem do dia
um mundo invencível
engolindo o simples
invadindo canteiros
ressequidos e mal cuidados
e brotar flores no pouco
onde vicejam plebeinhas flores...
o jardineiro foi embora
Só a roda do faça, vá
empurrada pelo dia-a-dia
que se disfarça no muito:
fazer, ir, adquirir, pagar
Mas sozinha no escuro
engrenagens desligadas
ruídos já emudecidos
o meu pouco se revela:
ouço-me, amo, lembro, choro
e às vezes, oro
O que sou desperta o grito
que vem do pouco que reclama
E que se cala abafado pelo muito
que vem e se anuncia
ao amanhecer

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