Carta da França.Silvinha Simões
Le
Pont du Gard
Não muito longe de Tarascon, a uns quinze Km para ser mais
preciso, fica um dos monumentos mais visitados da Provence.
Construído
sobre o Rio Gardon, na Região du Gard, esse monumento é o mais puro exemplo de
soberania e poder do povo romano que dominava o velho mundo daquela época.
Milenar,
ele ainda está lá, quase intacto, imune à ação do tempo.
Logo que você se aproxima do
estacionamento recém construído e pagante, com capacidade de receber mais de 3000
veículos, você já começa a ter uma idéia da grandiosidade do Pont du Gard ao
entrevê-lo e adivinhá-lo ao fundo, por trás de árvores e rochas da paisagem
local.
No caminho que se faz a pé,
depois que se deixa o carro, as surpresas se apresentam, uma a uma:
a) Quiosques e lojas vendendo souvenirs e artesanatos,
b) Cavernas pré-históricas
encravadas nas rochas do lado esquerdo do caminho (das quais só se pode ler, da
estrada, as placas informativas)
c) Uma subida íngreme, sombreada, em meio à
mata e rochas, onde fica uma escadaria rústica de pedras que dá acesso ao
segundo andar da ponte,
d) Do lado direito, seguindo todo o trajeto, um jardim
artificial acompanha a margem do rio: caramanchões, bancos, gramados,
cimentados, banheiros, árvores replantadas e um sistema de rega a vaporizador
d´água sob o qual até os turistas se esbaldam no alto verão. Salvos os
quiosques e as lojas, toda a infra –estrutura é muito nova e cara. Meses atrás,
eu cheguei a visitar esse lugar, e não se cobrava estacionamento, que não tinha
lugar próprio. Parava-se ali mesmo perto das oliveiras (três) com mais de mil
anos, trazidas do Oriente para presentear a França.Apenas uma cerca barrava o
lugar.
O Antoine contou que em 70, 80, podia-se passar de carro e bicicleta por
todo local e mesmo no primeiro andar da ponte. E a escadaria que começa lá no
caminho de acesso, levava os mais corajosos até a vala que transportava a água,
lá em cima, no topo do aqueduto, no topo do terceiro andar.
Depois que você já andou um
bom pedaço, você já pode se deslumbrar com frações do todo gigantesco da
construção, que aos poucos, vai se
descortinando ao fundo da paisagem entre árvores, sombras e rochas. Aí, você
prende a respiração ao vê- lo por inteiro, majestoso e milenar, intacto à ação
do tempo.
Mas por que eles, os
romanos, iriam construir uma ponte assim tão monumental, que pelo seu porte
incomum, tornou-se através dos tempos, um dos lugares mais visitados do mundo
inteiro?
O próprio Rio Gardon não justificaria, visto
ser um rio nem muito
largo, nem muito caudaloso! Só que ele cavou naquela região montanhosa, após
milhões de anos, um leito que se tornou o fundo de um desfiladeiro.
Acontece que os romanos, em
sua época áurea de domínio do Velho Mundo, tendo uma de suas principais sedes
em Nimes, cidade que até hoje trás as marcas desse domínio nas casas de banho,
anfiteatros, bibliotecas, arenas, jardins mitológicos, precisavam de muita
água, escassa naquela região.
Começaram, então, a
construção de um aqueduto que traria o líquido precioso de outros lugares a
quilômetros de distancia de Nimes.
Para não se desviar do Rio Gardon que estava
no caminho do aqueduto, os arquitetos romanos planejaram essa monstruosidade de
obra que transportaria a água no terceiro andar da construção sobre o rio,
dentro de uma espécie de grande valeta de pedras.
Os andares primeiro e segundo
têm, entre suas colunas, enormes vãos em arcos e no terceiro, os vãos são
menores, mais baixos, formando arcos mais numerosos e delicados.Lembra um pouco
aquele monumento dos “arcos” no Rio de Janeiro onde passa um trenzinho sobre
ele, sem comparação de tamanho, é claro.
Contam que muitos escravos
morreram durante a construção do aqueduto, despencando-se dos andaimes.
O mais interessante, é que
naquele tempo, não havia o cimento, nem a cal como nós os conhecemos hoje.O
Pont du Gard resiste intacto após mais de mil anos, com suas pedras
matematicamente cortadas e encaixadas num sistema de “junta seca”. Elas são só
justapostas umas sobre as outras sem rejunte.
Andar por sobre a ponte do
primeiro andar, jogar uma moedinha no rio, como manda a tradição, sentir-se
parte daquela grandiosidade romana, só não é melhor do que a sensação de
descermos ao rio, pisarmos suas águas e, observando de baixo para cima, como
formigas olhando o gigante de pedras, termos a exata dimensão do poderio
romano, tão verdadeiramente descrita nos livros de História.
À bientot!




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