quarta-feira, 30 de setembro de 2020

IV

Portugal IV

         Onde é que estávamos, mesmo? Ah! Na cava do Vinho Do Porto Ramos Pinto, em Vila Nova de Gaia, na grande Porto.Eram muitas as cavas, mas escolhemos a Ramos Pinto, por ser uma das marcas mais famosas de Portugal.

         A guia que conduzia o grupo de turistas visitantes, falava cinco línguas e era muito simpática. Quando terminamos de percorrer as dependências da cava, e ouvir as explicações sobre as técnicas da feitura do vinho do porto, ela nos levou à uma grande e luxuosa sala de projeção, onde assistimos a um filme que detalhava desde o cultivo da uva até a fabricação da bebida.

         Vimos que, para o vinho do Porto, as vinhas de uvas especiais, são cultivadas em montanhas íngremes, naquela região onde o clima é apropriado. A doçura do vinho, também é controlada para mais ou para menos, em regiões determinantes para um caso, ou para outro, de acordo com o clima e solo, só encontrados naquelas condições das redondezas de Gaia.

         Uma vez plantadas nestas montanhas preparadas em degraus, a vinha lança, pedreira abaixo, mais de quinze, até mesmo dezoito metros de raízes, furando pedras, heroicamente, em busca da seiva. São os frutos deste sacrifício tão abnegado, a matéria prima responsável pelo delicioso vinho do Porto.

         Na sala vip, já na saída da cava, degustamos um desse néctar. Um cálice do claro e outro do escuro.

         Depois de comprarmos algumas garrafas, voltamos à Porto e almoçamos no Hotel, onde estávamos hospedados. Contas fechadas, seguimos na direção de Aveiro. Essa cidade estava no nosso roteiro, pela fama dos seus barcos escandalosamente coloridos. São, na verdade, grandes canoas. Elas estão nos canais dentro da cidade, nas praias, em alto-mar... Têm a proa que se lança em arabesco para cima, bem mais alta que a canoa, num desenho que lembra os barcos chineses. As casas, todas com fachadas revestidas em azulejos, igrejas riquíssimas. Não fizemos muitas fotos, chovia muito.

         Tocamos para Mira. Marie queria que víssemos os bois puxando as redes, a atração da cidade. Infelizmente, essa tradição havia sido abolida. Mas, nos barcos, ainda o colorido dos de Aveiro.

Enfim, estávamos a caminho de Cantanhede. Meu Deus! Chegar à cidade da Vó Maria, percorrer as ruas por onde ela passava, conhecer a Praça onde ela me contava ser paquerada em trovas pelos rapazes naquele final do século XIX, entrar na única igrejinha da cidade, palco das missas assistidas por ele, com o Tio João nos braços...Parecia que eu voltara no tempo. È assim, a Europa. As coisas se cristalizam e não se misturam com o novo. Ficam lá, testemunhando o tempo. Qualquer tempo no Passado pode ser alcançado em seus países de sonhos. Será sempre o “Velho Mundo”, seja qual for o futuro.

         O engraçado, foi acordar de manhã, e sair pelas ruas, em busca de alguém que fosse Simões. A bicicleta

ria, o açougue, uma casa de móveis, uma farmácia, em toda rua ou esquina daquela cidadezinha de Cantanhede, havia uma inscrição na fachada comercial; SIMÕES. E agora? Simões aqui, é mais comum que Silva no Brasil!!! Foi melhor, então, buscar pelo sobrenome da vovó: Sarraipo Barradas. Havia muitos também, mas agora, estavam mortos, segundo as informações da dona do Hotel, que, por sinal, tem uma irmã em São Paulo. Foi ela também quem me informou haver ainda um tio meu, que morava sozinho e estava muito doente. Fomos até sua casa, mas a enfermeira pediu que voltássemos depois do almoço. Aproveitei para ir ao cartório da cidade para levantar alguns dados sobre os parentes da vovó. Não me lembrava das datas exatas. Não puderam me ajudar. Se, pelo menos, eu soubesse, com antecedência, que passaria em Cantanhede um dia...Antoine não quis esperar para falar com meu tio. Preferiu seguir viagem, apesar do meu desaponto. Na praça, pedi para fazer uma foto com uma dessas portuguesas, comuns, por todo Portugal, as “eternas viúvas”, vestidas de preto, da cabeça aos pés, xale enrolando cabeça e ombros, saia até o meio das pernas, meias grossas e sapatos fechados. Era a minha avó Maria, aquela mulher que pousava para mim na frente da Igreja. Quando cheguei a Tarascon, no final da viagem, mandei o retrato para ela, como havia prometido. Acabara assim, minha aventura nas terras de meus avós. Mas não acabaria a minha viagem a Portugal. Contarei mais, no próximo capitulo. Coimbra nos espera.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário