IV
Portugal IV
Onde é que
estávamos, mesmo? Ah! Na cava do Vinho Do Porto Ramos Pinto, em Vila Nova de
Gaia, na grande Porto.Eram muitas as cavas, mas escolhemos a Ramos Pinto, por
ser uma das marcas mais famosas de Portugal.
A guia que
conduzia o grupo de turistas visitantes, falava cinco línguas e era muito
simpática. Quando terminamos de percorrer as dependências da cava, e ouvir as
explicações sobre as técnicas da feitura do vinho do porto, ela nos levou à uma
grande e luxuosa sala de projeção, onde assistimos a um filme que detalhava
desde o cultivo da uva até a fabricação da bebida.
Vimos que,
para o vinho do Porto, as vinhas de uvas especiais, são cultivadas em montanhas
íngremes, naquela região onde o clima é apropriado. A doçura do vinho, também é
controlada para mais ou para menos, em regiões determinantes para um caso, ou
para outro, de acordo com o clima e solo, só encontrados naquelas condições das
redondezas de Gaia.
Uma vez
plantadas nestas montanhas preparadas em degraus, a vinha lança, pedreira
abaixo, mais de quinze, até mesmo dezoito metros de raízes, furando pedras,
heroicamente, em busca da seiva. São os frutos deste sacrifício tão abnegado, a
matéria prima responsável pelo delicioso vinho do Porto.
Na sala vip,
já na saída da cava, degustamos um desse néctar. Um cálice do claro e outro do
escuro.
Depois de
comprarmos algumas garrafas, voltamos à Porto e almoçamos no Hotel, onde
estávamos hospedados. Contas fechadas, seguimos na direção de Aveiro. Essa cidade
estava no nosso roteiro, pela fama dos seus barcos escandalosamente coloridos.
São, na verdade, grandes canoas. Elas estão nos canais dentro da cidade, nas
praias, em alto-mar... Têm a proa que se lança em arabesco para cima, bem mais
alta que a canoa, num desenho que lembra os barcos chineses. As casas, todas
com fachadas revestidas em azulejos, igrejas riquíssimas. Não fizemos muitas
fotos, chovia muito.
Tocamos para
Mira. Marie queria que víssemos os bois puxando as redes, a atração da cidade.
Infelizmente, essa tradição havia sido abolida. Mas, nos barcos, ainda o
colorido dos de Aveiro.
Enfim, estávamos a caminho de Cantanhede. Meu Deus! Chegar
à cidade da Vó Maria, percorrer as ruas por onde ela passava, conhecer a Praça
onde ela me contava ser paquerada em trovas pelos rapazes naquele final do
século XIX, entrar na única igrejinha da cidade, palco das missas assistidas
por ele, com o Tio João nos braços...Parecia que eu voltara no tempo. È assim,
a Europa. As coisas se cristalizam e não se misturam com o novo. Ficam lá,
testemunhando o tempo. Qualquer tempo no Passado pode ser alcançado em seus
países de sonhos. Será sempre o “Velho Mundo”, seja qual for o futuro.
O engraçado,
foi acordar de manhã, e sair pelas ruas, em busca de alguém que fosse Simões. A
bicicleta
ria, o açougue, uma casa de móveis, uma farmácia, em toda
rua ou esquina daquela cidadezinha de Cantanhede, havia uma inscrição na
fachada comercial; SIMÕES. E agora? Simões aqui, é mais comum que Silva no
Brasil!!! Foi melhor, então, buscar pelo sobrenome da vovó: Sarraipo Barradas.
Havia muitos também, mas agora, estavam mortos, segundo as informações da dona
do Hotel, que, por sinal, tem uma irmã em São Paulo. Foi ela também quem me
informou haver ainda um tio meu, que morava sozinho e estava muito doente.
Fomos até sua casa, mas a enfermeira pediu que voltássemos depois do almoço.
Aproveitei para ir ao cartório da cidade para levantar alguns dados sobre os
parentes da vovó. Não me lembrava das datas exatas. Não puderam me ajudar. Se,
pelo menos, eu soubesse, com antecedência, que passaria em Cantanhede um
dia...Antoine não quis esperar para falar com meu tio. Preferiu seguir viagem,
apesar do meu desaponto. Na praça, pedi para fazer uma foto com uma dessas
portuguesas, comuns, por todo Portugal, as “eternas viúvas”, vestidas de preto,
da cabeça aos pés, xale enrolando cabeça e ombros, saia até o meio das pernas,
meias grossas e sapatos fechados. Era a minha avó Maria, aquela mulher que
pousava para mim na frente da Igreja. Quando cheguei a Tarascon, no final da
viagem, mandei o retrato para ela, como havia prometido. Acabara assim, minha
aventura nas terras de meus avós. Mas não acabaria a minha viagem a Portugal.
Contarei mais, no próximo capitulo. Coimbra nos espera.

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