Antoine sua Tarascon, Provence
Hoje, transcrevo para meus leitores, uma carta do meu marido. Eu vou traduzi-la para o português.
“Sou francês, mas pouco conheço a arte vinícola. Para mim, um vinho é bom, quando a gente se identifica com ele. Não existe vinho bom ou ruim. Experimenta-se, gosta-se ou não. É assim que eu costumo determinar a qualidade dessa bebida.
Entretanto, tenho algumas lembranças, da minha juventude, as quais, hoje, reconheço como básicas a quem pretende ser um apreciador da bebida de Baco. Não me tornei um enólogo, como já disse, mas um “conesseur”.
Vamos às lembranças. Tarascon, minha cidade natal, fica na Provence, Sul da França, onde podemos encontrar uma profusão de castelos de todas as épocas e estilos, desde as ruínas romanas, passando pelos medievais até os mais recentes da época renascentista.
Corta essa região, o Rio Rhône, citado diversas vêzes por minha mulher nesta coluna. Segundo rio em importância na Europa, ele levou suas águas para desaguar em Genebra, terra dos Grandes Bancos, da liberdade soberana, da riqueza e da tecnologia.
E é lá em Tarascon, em uma das margens do Rio Rhône, onde fica o Château du Roi René. Início de construção, 74 D.C. Várias reformas para, na época medieval, ter sua construção acabada em todo seu esplendor no reinado de René que o usava nas estações de veraneio. Um dos castelos mais visitados na França, ele deve sua reputação por ser também um dos mais conservados do país. Seguramente, é verdade, pois, o filme “Prise de la Bastille”, sobre a Revolução Francesa, usou esse castelo como local de filmagem e o povo de Tarascon como figurantes.
Os castelos renascentistas são mais luxuosos, conservam a autenticidade das mobílias, jardins suntuosos, e são mais comuns na região que vai de Paris à Vallé de Loire, como os famosos de Chantilly e Versailles.
Mais recentemente na linha do tempo, surgem nas regiões dos grandes vinhos franceses, castelos de construções estilosas e ricas pertencentes aos seus renomados produtores. São chamados “domaine”, o castelo e a vinha a perder de vista ao seu redor. Assim, nasceram as grandes marcas, mundialmente conhecidas, inclusive o champanhe que tem suas raízes monásticas atribuídas a um monge que teria acidentalmente encontrado a receita desse “pecado de prazer”.
É, pois, numa paisagem como essa onde eu me vejo, aos dez anos de idade, levado pelo meu pai para trabalhar com ele, engajados na “vendímia”, colheita de uvas. Os trabalhadores eram administrados por um italiano que terceirizava a colheita. A convivência com ele e seus conterrâneos, também trazidos da Itália, valeu-me a primeira e estreita relação com a cultura italiana. Nos almoços, aprendi a degustar um espaguete ao sugo de cogumelos colhidos ali mesmo, debaixo dos pés de uvas, ou um belo assado de lebres ali mesmo tocaiadas e laçadas pelos trabalhadores.
Meu pai trabalhava como um dos transportadores das uvas colhidas por nós das “souches” (parreiras). Cada colhedor levava seu balde cheio e o esvaziava nas metades de tonéis com alças que os transportadores, como meu pai, levavam sobre a cabeça protegida por uma rodilha de pano, até uma caçamba que ficava a uns 300m do local, e que era puxada por cavalos. Dali, as uvas colhidas eram levadas à “cave” onde seriam despejadas no “pressoir”, primeira etapa na fabricação do vinho.
A nossa atividade de colhedores não era fácil, parece simples arrancar manualmente os cachos de uvas, mas esses oferecem uma resistência nada fraca. Além do cansaço desse movimento, amiúde deparávamos com vespeiros formados entre os galhos, sendo quase impossível não sermos picados no rosto ou nas mãos.
O ritmo e a qualidade do trabalho eram controlados por fiscais, a fim de manter a uniformidade no avanço da turma. Ninguém podia ficar para trás e nem deixar frutas desperdiçadas no campo. Esse cuidado todo era porque o serviço tinha datas de início e término bem definidas. O contrato era feito à base de “forfait” (empreitada) e se ganhava por produção. Os italianos tinham pressa de ganhar dinheiro nesses serviços temporários, queriam voltar logo para a Itália. Até hoje, eu não sei como conseguia, com apenas dez anos, acompanhar o ritmo daquela frente de trabalho. Só muito mais tarde, eu compreendi a ajuda silenciosa que meu pai me prestava quando, ao vir buscar seu tonel com uvas, ele “adiantava” comigo minha fileira de “souches” a ser colhida. As parreiras de uvas na França, são enfileiradas e baixas, não passam de nossa cintura, sustentadas por estacas e arames, mal comparando, como uma plantação de tomates. Já em Portugal, elas correm por cima, em caramanchões, como nós as conhecemos aqui no Brasil.
Mas, não foram só de espinhos, aquele tempo. A boa cozinha italiana, os primeiros muitos copos de vinho permitidos por meu pai, as precoces idas com as namoradinhas italianas, à noite, nas vinhas perfumadas, valeram-me uma sensação que ficaria para sempre, de que a felicidade tem o sabor e a cor de uma boa taça de vinho tinto, encorpado e seco, ou mesmo de um moscatel doce e gelado tomado depois de tudo acontecer.”
Tim-tim!!!
À bientot!

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