sexta-feira, 25 de setembro de 2020


 

O Trem e o Galo

 

         Numa família de origem muito simples, nasceu minha mãe, também Silvia: Silvia David. Morou, até se casar aos 16 anos, na Vila Progresso, uma vila operária, á que meus avós eram funcionários da Juta e da CTI.

         Vovó queria muito que mamãe estudasse e a matriculou no Bom Conselho, como aluna da Caixa, uma entidade que acolhia as meninas mais pobres. Mas, elas tinham certas tarefas para “agradecer” essa benesse: segurar o guarda-chuva da madre que saía pedindo doações, ajudar na cozinha, na limpeza...

         Talvez Freud explicasse, na psicologia, a peraltice da mamãe, sempre se destacando pela indisciplina, desobediência e atraso escolar.

         Fosse na escola, em casa ou com os colegas vizinhos, mamãe se adiantava e comandava as terríveis artes, uma moleca.

         Sim, preciso me apressar por contar onde entra o trem, a famosa Litorina na minha história.

A Vila Progresso, ficava às margens da Estrada de Ferro Central do Brasil. E, as crianças, sabendo o horário habitual de passagem da Litorina, usada por pessoas ricas e importantes, desciam o grande barranco que levavam à linha, e, com bolsas, cestas, aparavam frutas, restos de comidas embrulhadas, balas, doces...guloseimas que o pessoal da cozinha embalava e jogava pelas janelas do trem para as carentes crianças.

Com elas, disputavam as galinhas, criadas pelas famílias, às soltas pelos barrancos e dormentes.

         Mamãe, sempre, torcia para que um desses animais fosse atropelado pela Litorina. Sim, mamãe só queria ver isso. Não pensava em tragédia, ou malvadeza, não pensava, só desejava, ardentemente, que isso acontecesse. Meu Deus, pergunto-me como entender o que se passava na cabecinha dela.

Uma das tardes, quando voltava da escola, ouviu a Litorina que se aproximava. Ela estava subindo o barranco cortando o caminho que levava à sua casa quando procurou e viu o bando de galinhas e o galo ciscando a terra à beira da linha do trem. “É hoje”, pensou.

Escondeu-se atrás de um arbusto e... quando o trem estava muito próximo, sai ela, então, aos gritos, tocando os bichinhos pra baixo do trem.

O maquinista puxa a corda do apito, fazendo-o gemer muito alto, num grito de dor que de nada adiantou.

Foram voos nervosos, barulho de muitas asas se debatendo, penas pra todos os lados, mas... só o galo levou a pior, talvez no afã de salvar suas companheiras! Perdeu uma perninha e o seu sangue jorrou por todos os lados!

E a mamãe? O que será que se passou com ela?

Sempre que nos contava isso, fazia gestos, ria...parecia que fora como ela gostaria que fosse, mas não! No final da narrativa, ela fazia questão de desabafar sua culpa que levara por toda vida.

Segundos depois, ou mesmo, enquanto tudo acontecia, ela já se desesperara. Por que fizera aquilo? Não era para acontecer nada, só queria vê-los assustados e gostaria de ter rido muito... Contaria com orgulho sua peraltice.

Contou, mas levou umas cintadas da vovó e um discurso de desaprovação quase interminável.

Ah! O galo não virou o jantar. Amarraram-lhe na junta da perna e ele aprendeu a andar pulando com uma perninha só. Fora mais um castigo para mamãe que teve de se lembrar do seu mal feito durante um bom tempo.

  

 

 

 

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