O Trem e o Galo
Numa família de origem muito simples, nasceu minha mãe,
também Silvia: Silvia David. Morou, até se casar aos 16 anos, na Vila
Progresso, uma vila operária, á que meus avós eram funcionários da Juta e da
CTI.
Vovó queria muito que mamãe estudasse e a matriculou no Bom
Conselho, como aluna da Caixa, uma entidade que acolhia as meninas mais pobres.
Mas, elas tinham certas tarefas para “agradecer” essa benesse: segurar o
guarda-chuva da madre que saía pedindo doações, ajudar na cozinha, na
limpeza...
Talvez Freud explicasse, na psicologia, a peraltice da
mamãe, sempre se destacando pela indisciplina, desobediência e atraso escolar.
Fosse na escola, em casa ou com os colegas vizinhos, mamãe
se adiantava e comandava as terríveis artes, uma moleca.
Sim, preciso me apressar por contar onde entra o trem, a
famosa Litorina na minha história.
A
Vila Progresso, ficava às margens da Estrada de Ferro Central do Brasil. E, as
crianças, sabendo o horário habitual de passagem da Litorina, usada por pessoas
ricas e importantes, desciam o grande barranco que levavam à linha, e, com
bolsas, cestas, aparavam frutas, restos de comidas embrulhadas, balas,
doces...guloseimas que o pessoal da cozinha embalava e jogava pelas janelas do
trem para as carentes crianças.
Com
elas, disputavam as galinhas, criadas pelas famílias, às soltas pelos barrancos
e dormentes.
Mamãe, sempre, torcia para que um
desses animais fosse atropelado pela Litorina. Sim, mamãe só queria ver isso.
Não pensava em tragédia, ou malvadeza, não pensava, só desejava, ardentemente,
que isso acontecesse. Meu Deus, pergunto-me como entender o que se passava na
cabecinha dela.
Uma
das tardes, quando voltava da escola, ouviu a Litorina que se aproximava. Ela
estava subindo o barranco cortando o caminho que levava à sua casa quando
procurou e viu o bando de galinhas e o galo ciscando a terra à beira da linha
do trem. “É hoje”, pensou.
Escondeu-se
atrás de um arbusto e... quando o trem estava muito próximo, sai ela, então,
aos gritos, tocando os bichinhos pra baixo do trem.
O
maquinista puxa a corda do apito, fazendo-o gemer muito alto, num grito de dor
que de nada adiantou.
Foram
voos nervosos, barulho de muitas asas se debatendo, penas pra todos os lados,
mas... só o galo levou a pior, talvez no afã de salvar suas companheiras!
Perdeu uma perninha e o seu sangue jorrou por todos os lados!
E
a mamãe? O que será que se passou com ela?
Sempre
que nos contava isso, fazia gestos, ria...parecia que fora como ela gostaria
que fosse, mas não! No final da narrativa, ela fazia questão de desabafar sua
culpa que levara por toda vida.
Segundos
depois, ou mesmo, enquanto tudo acontecia, ela já se desesperara. Por que fizera
aquilo? Não era para acontecer nada, só queria vê-los assustados e gostaria de
ter rido muito... Contaria com orgulho sua peraltice.
Contou,
mas levou umas cintadas da vovó e um discurso de desaprovação quase
interminável.
Ah!
O galo não virou o jantar. Amarraram-lhe na junta da perna e ele aprendeu a
andar pulando com uma perninha só. Fora mais um castigo para mamãe que teve de
se lembrar do seu mal feito durante um bom tempo.

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