IV
A menina e a bicicleta
" A menina da Vila das Graças"
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| A menina com 5 ano |
Sua mãe destapou a sopa
fumegante no fogão à carvão, e a provou. Ainda estava quente. Seu pai jantaria
antes do banho reconfortante.
A menina ainda não ouvira falar
em psicologia familiar e mal seu pai sentou-se à mesa, ela disparou:
_Pai, posso andar na sua
bicicleta?
_Não, minha filha. Ela é muito
alta , o quadro atrapalha e você pode cair.
_Não vou cair, não, pai. Eu já
sei andar! Ah, deixe...
_Deixe seu pai comer em paz,
menina! Disse-lhe a mãe servindo a sopa. Seu pai gosta de todos à mesa nessa
hora. Sente-se e coma!
_Ah! Deixe, vá, pai...
E a menina segurava a guarda da
cadeira e sobre os ombros do pai...
_Deixe, pai, eu não caio!
_Está bem, vá. Mas se você se
machucar, eu não vou curar ninguém, ouviu, moça? Pode ir, mas já sabe.
A menina mal agüenta o peso da
bicicleta, e com sacrifício, leva-a até a rua. Segura os guidões, passa as
magra perninha direita por debaixo do quadro, pisa o pedal direito,
equilibra-se, procura com o pesinho
esquerdo o outro pedal e...lá vai ela rua abaixo.
Lembrava um macaco-aranha com as
mãos acima da cabeça segurando os guidões, o corpinho torto do lado esquerdo
desviando-se do quadro, a perna direita buscando o pedal direito...trabalho de
contorcionista. O selim, vazio, sem função, só atrapalhava a manobra.
Seu coraçãozinho dispara. E
agora? A esquina está chegando rápido demais!!!Como eu faço o retorno? Sentia o
tremor das pernas.
Ela procurou os freios. Suas
mãozinhas suadas, eram pequeninas demais
para alcançá-los. Os dedinhos esticados, tesos... “não consigo alcançar o freio
debaixo do guidão!!!” ela pensou desesperada. Não poderia olhar para
procurá-los, teria de levantar a cabeça ou como enxergaria o que lhe vinha pela
frente? Claro! Impossível!!
Sem alternativa, ela deu uma
guinada rápida para a esquerda. Tinha de fazer a curva mesmo naquela velocidade
desenfreada da descida.
Tentou. Mas não contava com o
banco de areia formado pela enxurrada das águas da chuva que, talvez com o
mesmo medo da menina, tentava fazer a curva à esquerda e, descontrolada,
depositava ali a areia trazida de longe.
Pobre menina! As rodas se
derraparam e ela sentiu a bicicleta pesando sobre seu corpinho. Viu a cerca de
arame farpado do canteiro da avenida crescer e se aproximar, chocando –se com ela num impacto surdo .
_Meu rosto!
Foi seu único pensamento. Ainda
com a bicicleta pesando sobre ela
e arrastando –a contra a cerca, ela grudou com
a mão esquerda o arame e, com toda a sua
frágil força, afastou as farpas metálicas que, como garras de um conto de
terror, visavam seu rosto.
Ficaram assim, não se sabe por
quanto tempo: menina, arame e bicicleta, num abraço indecifrável.
Rua deserta. À frente, o
canteiro de mata densa, escuro como breu. O ar morno trouxe o cheiro do capim
amassado. Ficou cristalizada, imóvel, esperando... Mas, o quê? Ela não sabia.
Precisava esperar. Não poderia se mexer sem se machucar.
_Papai avisou... Balbuciou a menina.
Não sentia dor. A dor vinha de
dentro dela, a vergonha de ter de chegar à casa e encarar o seu pai: “ Eu não
falei?”
De repente, ela ouve passos. Um
casal sai do escuro do campo. Talvez namorassem num encontro furtivo, mas para
ela eles foram os anjos que estavam quando e onde deveriam estar.
_Pobrezinha! Exclamou a mulher.
Erga a bicicleta, pediu ao namorado.
A menina contou que morava no
início da rua, mas omitira que desobedecera a seu pai.
_Ô, de casa! Bate palmas a moça
no portão. Vim trazer sua filha que caiu da bicicleta!
Dona Sílvia, sua mãe, estava
assustada, nem agradeceu, e sem verificar se a menina havia se machucado, teve
ímpeto de castigá-la:
_Bem feito! Seu pai lhe avisou!
E desapareceu para dentro da casa.
O casal, meio confuso com a
reação da mãe da menina, despede-se dela com carinho:
_Não foi nada, meu bem. Você vai
ficar boa.
A menina olhou para a varanda
escura. Esqueceu-se da bicicleta na calçada. Entrou. Na claridade da sala, ela
pode ver o que era aquele líquido morno que lhe escorria pelo braço. Ela
chorava e andava de um lado para outro. O piso de tijolo chupava como
mata-borrão as gotas vermelhas que pingavam de seus dedos.
_O que é que eu vou fazer meu
Deus!! Falou propositadamente alto a menina. Tinha medo do castigo, sabia que
errara. Estava envergonhada demais para encarar seus pais, para ir até eles,
mas o que faria sozinha com aquele rasgo em seu braço?
Ela ouve sua mãe na cozinha
esbravejando ao contar a seu pai o que
tinha acontecido.
De repente, a cortina de chita
estampada se abre e surge Dona Sílvia outra vez na sala:
_Venha ver, Zé! A menina se
machucou mesmo!!Ah, meu Deus, minha filha, como foi isso?
Seu pai se levanta da mesa e,
pálido, toma o braço da menina.
_Fique calma, minha filha!
Sílvia, traga uma toalha limpa e vá chamar seu pai. Vamos levá-la ao hospital.
O avô chegou em um minuto.
Estavam todos nervosos. A mãe chorava.
O pai sentou a menina no quadro
da bicicleta que felizmente não sofrera danos, amarrou a tolha no braço da
pequena, o avô trouxe outra bicicleta, e lá se foram os três ao pronto socorro.
Não havia médicos àquela hora na
Santa Casa. O enfermeiro de plantão fez o que sabia para estancar o sangue:
pontos de metal no corte do braço e pequenos curativos na região do pulso, na
palma da mão e na ponta do dedo anelar.
As cicatrizes ficariam para
sempre em seu braço e lhe lembrariam as consequências amargas de uma desobediência.
O pior foi a tipoia que ela teve
de portar por longos vinte dias denunciando o seu acidente o que a obrigava a
responder infinitamente aos curiosos:
_O que foi isso em seu braço,
menina?
_Eu teimei com meu pai e fui
andar de bicicleta e ...blá ...blá...blá...blá...

AMEI SUAS HISTORIAS ACHO ELAS MUITO ESGRAÇADAS
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