A menina e suas bonecas
Os avós maternos da pequena, só tiveram a mãe dela como filha. Operários incansáveis, e não tendo dependentes, faziam, com gosto, realizarem-se todos os sonhos da menina. Assim, os vestidos de batizado, da primeira comunhão, dos quinze anos, do casamento, teriam sua avó como fada madrinha. Seus brinquedos, sapatos, material escolar, também vinham dela.
Era uma mulher forte, sua avó Gertrudes, a “vó Tuda”. Gostava de falar o que pensava, e foi para a menina, um espelho de luta e trabalho, independência e altivez. Constrangia –se com as demonstrações de carinho da neta, mas derretia-se por dentro: "_Não faça isso, menina! Ai, Jesus, você me sufoca!" Fingia uma braveza que o sorriso desmentia.
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| Vó Gertrudes, mãe da mamãe. |
E, como era bom acompanhar a avó às costureiras! Sentir o cheiro dos tafetás, organdis, anarrugas e rendas...Experimenta, aperta, alfineta, corta...Herdaria para sempre a vaidade da “vó Tuda”. E como era linda sua penteadeira!... A menina levaria, vida afora, o desejo de possuir uma penteadeira como a de sua avó: os perfumes Damosel, Promessa, Madeira do Oriente...os cremes de alface para o rosto, o tônico de quina –petróleo pro cabelo do avô...Ah! Um dos perfumes, vinha envolto num balaiozinho de palha, lindo! O pó de arroz... o batom muito vermelho nas embalagens de lata dourada...Ela adorava observar aquela mulher já madura, mas não velha, a empoar-se para sair. Com sorte, a avó até a deixava sentar-se na cama limpa e cheirosa do casal, com a pera da luz e seu fio comprido dependurado na guarda... e como era lindo aquele lençol bordado a mão...
Todo Natal, era certo que a menina ganharia uma boneca dos avós. Eram sempre de porcelana, as bonecas, lindas! Um ano, ela ganhou uma vestida de noiva, com buquezinho de flores na mão, aliança e tudo. Que vontade de brincar com elas! Mas, não podia. Estavam sempre em cima do guarda-roupas para não se estragarem.
Mas a boneca de nome Sofia, ah!...Aquela era especial. Podia mexer os olhinhos!
" _Mãe, posso pegar a Sofia para brincar comigo de fazer comidinha?"
A mãe da menina olhou-a bem..." _Está bem, vou lhe dar um pouco de feijão e arroz crus, mas depois você tem de guardar tudo, heim?"
A menina subiu na cadeira, pegou a Sofia de cima do móvel, suas panelinhas, o feijão, o arroz e foi para o quintal, feliz da vida por sua mãe deixá-la brincar com a boneca.
Ao cair da tarde, as nuvens apagaram o sol e um pé de vento assanhou os cabelos da boneca e rolou as panelinhas pelo quintal.
" _Entre que vai chover, filha!" Gritou-lhe a mãe.
Foi uma semana triste aquela. Uma chuvinha fria caíra todo tempo prendendo as crianças em casa.
Na primeira estiagem, a mãe da menina saiu para estender umas roupas no varal. Perto do canteiro de couve, ela se deparou com uma cena horripilante! "_Filha, venha aqui, já!"
Sofia jazia semi enterrada no barro, e, no lugar de seus olhos, brotos viçosos de feijão haviam crescidos:
"_ Ah!, sua avó vai ficar sabendo disso!!!!"
A menina da Vila nunca mais ganhou boneca no Natal.

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