sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Menina e a Fábrica ( do Livro de contos A menina da Vila das Graças)

 A menina e
a Fábrica 
Sentada na rede do rancho, no quintal da casa de seus avós, a menina podia ver a grande chaminé de tijolos vermelhos da fábrica de juta. Olhando para o fundo do quintal, ali estava, entre as laranjeiras, o portãozinho do muro que separava o pequeno pomar do avô e o “campo da juta” como era chamada a grande área baldia com matos crescidos por onde os operários tinham de atravessar para chegar à fábrica de Juta.

O estridente barulho que vem do alto da chaminé a faz estremecer de susto. É o apito que avisa os operários da hora de troca da turma de trabalho. Um apito longo, queixoso, que chegava a doer os ouvidos para depois ir diminuindo seu barulho bem devagarzinho até desaparecer num sussurro agonizante. Os que estavam atrasados, apressavam-se. Um segundo apito seria ouvido dali a poucos minutos. Um apito forte, breve, bem seco e implacável. Era o “Pu”, como os operários o chamavam. Ao término desse som, eles deveriam estar cada um à frente de sua máquina de trabalho para mais uma jornada.

A menina aprendera a temer o “Pu”. Na verdade, esse apito representou em sua vida um primeiro contato com a realidade, um compromisso de responsabilidade, obediência e luta.

Seus avós, cada um trabalhando numa fábrica, revezavam-se em turnos. O mesmo apito que chamava ao trabalho, também anunciava o descanso aos que vinham de findar sua labuta.
Se a menina estivesse fazendo qualquer coisa que fosse, ela largava tudo ao ouvir aquele silvo estridente e forte, ia até o muro do jardim da sua casa para ver aquela gente de rostos cansados, mas felizes, que voltavam à sua casa. Traziam todos, dependuradas na cintura, pequenas garrafinhas verdes vazias de guaraná que eles aproveitavam para levar o café engolido frio em meio ao barulho das máquinas.
A procissão alegre de operários barulhentos parece não ter fim. Os olhinhos da menina buscam uma figura em especial. É um anãozinho ruivo a miniatura que a encanta tanto. Ele sorri todas as vezes para ela, como se já a esperasse. Ela abaixa a cabeça envergonhada. Sua mãe lhe ensinara não reparar nas pessoas diferentes. Mas lhe era irresistível olhar o anãozinho e imaginar se ele brincava de trabalhar. Ele tinha o seu tamanho! Como podia ter aquela imagem de um homem velho? Como? Quando erguia a cabeça ainda podia ver a pequena figura voltar-se para ela e lhe sorrir.

Aos poucos a rua ia ficando deserta...até a saída do próximo turno da fábrica.
A menina se deixava ficar mais um pouco no jardim fazendo do que ela mais gostava: imaginando. Não adiantaria não crescer como o anão não cresceu. Um dia, ela teria de deixar o mundo do faz-de- conta e irremediavelmente ouvir os apitos da vida que eternamente a despertariam para a realidade..._Filha, venha almoçar! 

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