terça-feira, 27 de outubro de 2015

A Menina e suas Orígens ( do meu livro: A Menina da vila das Graças)


A menina e suas origens
do livro "A menina da Vila das Graças"

                            O vô Bibo e a vó Tuda em suas Bodas de Ouro (Igreja da paróquia Nossa Senhora das Graças)

                Sentada no banquinho de madeira apelidado de Tutu em memória a um cachorrinho da família, a menina olha para cima e tudo o que vê é o céu da boca do avô Bibo.
Quando ele erguia a cabeça em direção ao sol e escancarava a boca,a menina se preparava para deliciar-se com a gargalhada mais espetacular que ela,  e a vila toda, jamais ouvira. O mundo ria com ele. Os pássaros animavam-se numa debandada ruidosa, os cães latiam, e  nos galinheiros, as aves agitavam-se ruidosas.
        O vento  assanhava-se levando aquela gargalhada até os confins da vila.
           A menina encantava-se. Que força extraordinária de humor tinha seu avô para explodir-se assim num rir tão escandalosamente italiano!!! Era um homem de risos e choros fáceis. Uma vez, explicaram-lhe essa tendência dramática do avô como resultado do seu lado vêneto. O pai dele nascera em Veneza, o sr Paulo David.
                Da primeira vez que a menina ouvira a história do bisavô Paulo, ela se lembrava muito bem!
           Estavam já em suas camas, ela e seus dois irmãozinhos, Jocerley e David, quando seus pais entraram, como sempre faziam, para ficar um pouco com eles e lhes dar o "boa noite". Costumavam ver se estavam bem cobertos, às vezes o seu José tocava violão e todos cantavam, ou faziam do que a menina mais gostava: ouvir histórias.
                Acho que foi respondendo à pergunta da menina sobre o caráter vivo do avô Bibo que a d.a Sílvia resolveu lhes contar a história real da origem européia do avô.
                Num dia qualquer, no final do século XIX, Paulo David, vindo de Veneza, Itália, desembarca no porto de Santos, estado de São Paulo, trazendo em mãos o  endereço de seu irmão, Eugênio David, num papel dobrado e muito bem guardado.
                No primeiro ônibus, ele parte ansioso para cá. Chega aqui em Taubaté sem falar o português e com muita dificuldade de fazer-se entender.
                Depois de algumas horas, com fome, cansado, aquele homem louro alto olhos azuis, tem agora os ombros arcados e o ar abatido. O endereço no papel suado, já se rasgando nos vincos, mostra a sua difícil peregrinação.
                Quase cinco horas da tarde, ele está no centro de Taubaté onde havia um bosque  de árvores frondosas e bancos de madeira. Esse oásis era cercado de ricas mansões dos barões do café .
Paulo prostra-se num banco, descansa um pouco e já está quase desistindo quando repara numa linda mulher negra que varria a calçada de uma casa do outro lado da rua.
Levantou-se, aproximou-se dela, abordou-a, e essa mulher de corpo bem feito e o sorriso mais branco que ele já vira, fê-lo entrar, sentar-se na varanda e, junto com o copo com água, ela trouxe o seu patrão branco, que, com um parco conhecimento do italiano, explicou-lhe onde ficava a Fazenda do Barreiro.
                Era nessa fazenda que morava seu irmão Eugênio, o precursor do cultivo do caqui na região do Vale do Paraíba. Sonhava se juntar ao irmão, mas o destino lhe reservara apenas a vida de empregado limpador dos cafezais locais. Sempre trabalhou para os outros e nunca fez fortuna.
                Mas, esse homem simples, encontrara o que poucas pessoas podem se gabar de ter encontrado: um amor verdadeiro e duradouro.
                Sua paixão se chamava Isaura. A negra que ele conhecera varrendo a calçada naquela tarde de verão, não lhe ofereceu apenas um copo com água reconfortante e o sorriso acolhedor. Ela também lhe ofereceu uma vida de 50 anos ao seu lado. Foi assim...
                Paulo viera agradecer ao patrão de Isaura a atenção dele no outro dia. Mais aliviado com o encontro do seu irmão, ele teve tempo de conhecer Isaura.        Apaixonaram-se, namoraram e se casaram numa missa de domingo na capelinha da fazenda. Da mesma fazenda onde a mãe de Isaura, ex escrava, trabalhava. Seu Sinhozinho e dono também era o pai de sua filha Isaura, segundo os hábitos da época. Então, aquela africana que conquistara Paulo com o seu modo terno e fino, tinha no sangue, a estirpe da família branca que a criara.
               Foram morar ali mesmo numa casa de taipa no quintal da fazenda. Ela aprendeu o italiano, fez-lhe todos os gostos. Esmerou-se na cozinha. A polenta feita na panela de ferro e depois derramada na chapa do fogão à lenha era cortada com barbante, bem à moda italiana, como tudo que fazia para ele. O cheiro do café torrado e moído por ela mesma, despertava o marido e os onze filhos que tiveram. Crianças espertas ao redor da mesa, rostos diferentes mostrando a indecisão dos genes. O pai louro e a mãe negra, confundiu a natureza que os fez, então, louros de pele negra, alguns com olhos verdes ou caramelos, cabelos pixains para uns, lisos para outros, pele branca , cabelos cacheados e olhos cor de mel como era o vovô Bibo e algum outro seu irmão. Para os narizes, um formato arrebitado que disfarçava o traço mais negro da família.
                A essa altura, a menina que ouvia atenta a história da mãe, apalpa orgulhosa seu nariz arrebitado e agradece baixinho à sua bisavó Isaura, pois essa era do seu corpo, a parte mais elogiada.
                Os filhos de Isaura e Paulo cresceram  na roça e lá mesmo, alguns se casaram.
                _Seu avô Bibo, minha filha, casou-se com a avó Gertrudes que, mais tarde, veio trabalhar aqui em Taubaté como babá dos filhos do senhor Manoel, administrador da Fábrica de Juta. Aos poucos, ela foi trazendo os homens da família para trabalhar no serviço fichado e seguro na fábrica. Primeiro o marido e depois os cunhados, um a um foi deixando o campo de café. Até seus sogros vieram morar na cidade. Todos eles se concentraram na vila das Graças por ser próxima à fábrica.
                Mesmo longe da roça, Isaura pediu um fogão à lenha e continuou no comando da casa  onde morava ainda alguns filhos solteiros.
                _Eu me lembro bem do cheiro de tempero que sentia quando abraçava minha avó. E a mãe da menina continuou a história de Paulo e Isaura.
                Paulo adoecera. Talvez tivesse aprendido o sentimento de “banzo” com a mulher Isaura, e de banzo adoeceu. Não era por falta da Itália, mas por falta da vida na roça. Isaura assistia, inconformada, o marido agonizar. Não aceitava ter de se separar do amado. Os filhos a retiram do  quarto para poupá-la da dor de vê-lo morrer. Assim, quando Paulo a chama  no seu leito de morte, é a avó Gertrudes, sua nora, que finge ser a esposa Isaura.
                _Isaura, traga o meu chapéu que eu vou fazer uma longa viagem, mas não quero ficar longe de você. Promete que vai encontrar-se comigo em breve? Promete?
                Foi a avó Tuda quem respondeu o "sim” e fechou-lhe os olhos.
                Alguns dias após o enterro de Paulo, Isaura acabara de lavar a louça do almoço, e chamou seu filho Modesto na cozinha:
                _Filho, eu quero que você mande ampliar uma foto do seu pai e a pendure aqui na cozinha num lugar onde eu possa vê-lo sempre.
                _Está bem, mãe, fique sossegada.
                _Já passei uma chaleira de café, vou me deitar um pouco, estou muito cansada. Acorde-me daqui uma hora que eu tenho de dar remédio para  o seu irmão que não foi trabalhar.
                _Vá ,vá descansar, eu vou fumar um cigarro enquanto espero a hora de ir ao banco.Depois eu a acordo.
                Mas o espírito iluminado da avó Isaura não quis ficar sem seu amado Paulo. Um suspiro profundo, o seu último e sofrido suspiro, assustou o filho que fumava na sala. Morria dez minutos depois de encomendar a foto de Paulo.
                Era o seu próprio caixão que os filhos, chorando abaixavam agora, duas semanas após o enterro do marido, bem ao lado da sepultura dele. Na terra macia e úmida do túmulo de Paulo, as marcas dos dedos de Isaura, ainda  junto às flores recém plantadas, denunciavam seu último gesto de amor.
                A mãe da menina estranha o silêncio do quarto quando termina a história. Os dois filhos menores dormiam. O pai debruçado ao violão, tinha o semblante emocionado.
                Minha filha, gostou da história?
                A menina da vila tinha os olhos arregalados, mas não se mexia. Seu corpinho teso não podia mover nem um músculo. Seu queixo batia tanto que seus dentes rangiam. Fora demais para o seu pequeno coração uma história tão linda mas tão triste. Que pena tivera de seus bisavós!!
                Os pensamentos da menina ficaram presos naquela cozinha, naquela chaleira de café feito pela avó e que ainda estava quente quando foi servido às primeiras pessoas que chegaram para guardar o seu corpo. Também presos estavam nas marcas dos dedos da avó na terra macia do cemitério.
                Conhecera os túmulos por ocasião do Dia dos Mortos. Ainda podia vê-los sob uma árvore frondosa, lado a lado, tanto na vida quanto na morte.
                _O que é que você tem, filha? Repetiu-lhe a mãe.
                _Vá preparar-lhe um chá, isso é nervoso, disse o pai.
                Mas, d.a Silvia foi é chamar o médico no telefone da vizinha.
                _Vou dar-lhe um calmante, mas de agora em diante, nada de histórias tristes antes de dormir. Amanhã ela acordará boa e um chá de hortelã lhe fará bem.
                Mal o dr. Jorge saiu e a menina já adormecera. Agora, sonhava que era ela, e não a mãe, na cozinha de Isaura . Abraçava-a com força e podia sentir o cheiro de tempero de seu avental.
                _Oi, vó! As flores que você plantou para o vô Paulo ainda estão lá, viu? Elas são lindas!!!
                Isaura abriu um sorriso doce e acariciou-lhe os cabelos.



Um comentário:

  1. Olá, sou Augusto David, neto de Angelista David, filho de Paulo David. Meu avô também me contava esta história sobre o pai dele. minha mail: david.cesaraugusto@gmail.com

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